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Déficit das estatais bate recorde e chega a R$ 5,9 bilhões nos cinco primeiros meses de 2026

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As empresas estatais federais voltaram a acumular resultados negativos em escala inédita no terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Entre janeiro e maio de 2026, o déficit somou R$ 5,9 bilhões, o maior para o período desde o início da série histórica do Banco Central (BC). O valor já supera todo o saldo negativo de 2025, que fechou em R$ 3,6 bilhões.

Quando se acrescentam estatais estaduais e municipais, o rombo alcança R$ 7,4 bilhões. No acumulado de 12 meses encerrados em maio, o déficit totaliza R$ 9,7 bilhões.

Caminho de superávit a prejuízo

Depois de registrar superávits anuais entre 2018 e 2022 – pico de R$ 10,29 bilhões em 2019 e saldo positivo de R$ 4,75 bilhões no fim do governo Jair Bolsonaro (PL) – o quadro mudou em 2023. Naquele ano, decisão liminar do então ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Ricardo Lewandowski suspendeu parte das exigências da Lei das Estatais, abrindo espaço para indicações políticas em diretorias e conselhos de administração. O exercício de 2023 terminou com déficit de R$ 656 milhões.

Em maio de 2024 o plenário do STF restaurou as restrições, mas manteve os indicados nomeados durante a vigência da liminar. Os resultados, porém, continuaram a piorar até o recorde atual.

Analistas apontam aparelhamento e “filosofia do não lucro”

Izak Carlos da Silva, economista do Instituto Millenium, afirma que a deterioração não é casual, mas consequência de um “projeto deliberado” que prioriza ocupação política em detrimento de critérios técnicos. Segundo ele, quando cargos passam a servir como moeda de barganha, “o resultado operacional negativo é previsível”.

Para a ex-secretária de Desestatização do BNDES Elena Landau, pesa ainda a chamada “filosofia do não lucro”, na qual se defende que a função social de uma estatal eliminaria a obrigação de gerar resultado positivo. Ela critica interpretações amplas de “interesse público” que permitem ao governo usar as empresas para investimentos fora da meta orçamentária, classificando perdas como aplicação a maturar.

Rafael Barros Barbosa, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), acrescenta que a Lei das Estatais carece de mecanismos eficazes de responsabilização. “O déficit reflete escolhas administrativas”, afirma, defendendo revisão de empresas que geram custos contínuos sem serviço compatível.

Correios concentram maior risco fiscal

Os Correios ilustram a fragilidade de parte das estatais. A companhia fechou 2025 com prejuízo de R$ 8,5 bilhões e precisou de empréstimo de R$ 12 bilhões garantido pela União. A proposta de Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2027 reconhece possibilidade de novos aportes caso a situação não seja revertida. Especialistas atribuem o resultado à incapacidade de adaptação ao mercado de logística dominado por operadores privados.

Governo questiona métrica do Banco Central

Diante da piora, o Ministério da Gestão e da Inovação (MGI) sustenta que o indicador do BC mede apenas a necessidade de financiamento e não reflete a saúde financeira das empresas. Em balanço divulgado em julho, o governo informou lucro líquido de R$ 169,4 bilhões em 2025, patrimônio superior a R$ 1 trilhão, ativos de R$ 7,2 trilhões e investimentos de R$ 115,9 bilhões.

Elena Landau observa, contudo, que as bases são diferentes: o BC acompanha apenas estatais não dependentes, enquanto sociedades de economia mista como Petrobras, Banco do Brasil e BNDES ficam fora do cálculo, mas respondem por 90,9% do lucro total – a Petrobras sozinha lucrou R$ 110,6 bilhões em 2025.

A discrepância metodológica, dizem os economistas, não altera o quadro de déficit crescente entre as demais empresas controladas integralmente pela União.

Com informações de Gazeta do Povo