Assunção – O Senado e a Câmara dos Deputados do Paraguai aprovaram, nesta quarta-feira (29), notas oficiais de repúdio às declarações do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre a Guerra da Tríplice Aliança (1864-1870). Os congressistas acusam Lula de distorcer a história ao afirmar que o Paraguai “decidiu invadir o Brasil” e de usar o conflito para justificar o aumento dos gastos militares brasileiros.
Visita a fábrica de defesa desencadeou a crise
As falas que motivaram o protesto ocorreram na última sexta-feira (24), durante visita de Lula à unidade da Avibras Aeroco, em Jacareí (SP). Na ocasião, o presidente disse que seu governo “valoriza a paz”, mas lembrou que “um dia o Paraguai decidiu invadir o Brasil” e, em seguida, atacou Argentina e Uruguai.
Nota do Senado
Em sessão extraordinária, o Senado aprovou texto apresentado pelo oposicionista Eduardo Nakayama, que considera as declarações “uma simplificação unilateral das origens da guerra” e atribui ao Paraguai o “status de único agressor”, omitindo, segundo os senadores, a participação brasileira na invasão do Uruguai.
O documento sustenta que o Paraguai “é um dos países mais pacíficos da América do Sul” e “não representa qualquer ameaça à soberania ou integridade territorial do Brasil”. Também lembra que o conflito provocou a perda de 50% a 60% da população paraguaia, devastação econômica e ocupação militar prolongada, feridas que “permanecem abertas na memória coletiva”.
Durante o debate, o senador Rafael Filizzola classificou como “absurdo” trivializar o episódio, enquanto Ignacio Iramain declarou que “Lula tem o direito de defender seu país, mas não de usar a tragédia paraguaia para justificar o uso de armas”.
Decisão da Câmara dos Deputados
Na Câmara, os parlamentares aprovaram resolução que condena o presidente brasileiro por “distorcer e minimizar a magnitude” da guerra. O texto foi encaminhado ao presidente Santiago Peña e pede ao Poder Executivo que intensifique gestões diplomáticas para a devolução de troféus de guerra mantidos no Brasil.
Canhão Cristiano em pauta
Entre os itens reivindicados está o Canhão Cristiano, peça de artilharia fundida em 1866 com sinos doados pela população paraguaia. O armamento está exposto no Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro. O vice-presidente paraguaio, Pedro Alliana, reforçou o pedido de restituição ao comentar as falas de Lula.
Os congressistas paraguaios concluíram que acontecimentos históricos sensíveis devem ser tratados “com responsabilidade e espírito de reconciliação, honrando a verdade e a memória das vítimas”.
Com informações de Gazeta do Povo