O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), passou a atuar como um dos principais escudos do Palácio do Planalto contra propostas consideradas inconvenientes pelo governo federal. A mudança de postura, após um 2025 marcado por atritos, ocorre em meio ao calendário eleitoral de 2026 e ao desgaste da relação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com o comando do Senado.
Regimento usado como freio a temas populares
A cooperação fica evidente na estratégia de Motta de não instalar a comissão especial que analisaria a PEC da redução da maioridade penal de 18 para 16 anos. A proposta obteve parecer favorável na Comissão de Constituição e Justiça, mas depende da criação do colegiado para avançar. Segundo o consultor político Érico Oyama, o presidente da Câmara “congela” um assunto de forte apelo eleitoral e evita desgaste para o Planalto.
Senado acelera, Câmara segura
Enquanto o Senado, comandado por Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), acelera projetos com impacto fiscal, governistas veem em Motta uma barreira a iniciativas consideradas “pautas-bomba”. Entre elas:
- Uso de recursos do Fundo Social do Pré-Sal para renegociar dívidas rurais, com estimativa de custo de R$ 140 bilhões em dez anos, segundo a equipe econômica (ou R$ 3,5 bilhões anuais, de acordo com a Frente Parlamentar da Agropecuária);
- Reajuste do piso salarial de médicos e dentistas;
- Criação de regras de aposentadoria específicas para agentes comunitários de saúde e agentes de combate às endemias.
Gesto de confiança
A sintonia aumentou depois que o governo retirou a urgência constitucional do projeto que extingue a jornada 6×1, atendendo a pedido de Motta. A medida foi interpretada como sinal de boa vontade do Planalto, que, em troca, espera maior controle da pauta na Câmara.
Reaproximação após tensão em 2025
No ano passado, Motta foi classificado por aliados de Lula como “imprevisível” e entrou em choque público com o então líder do PT na Câmara, Lindbergh Farias (PT-RJ). As divergências arrefeceram com a proximidade das eleições e a necessidade do governo de barrar projetos do Senado.
Interesses regionais
A parceria também reflete a disputa na Paraíba. O pai de Motta, o ex-prefeito Nabor Wanderley (Republicanos-PB), é pré-candidato ao Senado e aposta no capital eleitoral de Lula no Nordeste. O movimento sofreu revés quando o presidente gravou vídeo apoiando o senador Veneziano Vital do Rêgo (MDB-PB), rival direto de Nabor, mas ambas as partes minimizam impactos na relação em Brasília.
Segurança pública em pauta
A pesquisa Real Time Big Data, realizada de 2 a 4 de maio com 2.000 entrevistados e margem de erro de dois pontos percentuais, apontou que 90% dos brasileiros apoiam a redução da maioridade penal. Mesmo diante desse apoio, aliados do Planalto acreditam que Motta não levará o tema ao plenário antes das eleições, preservando Lula em área sensível de sua gestão.
No momento, o governo contabiliza R$ 215 bilhões em potenciais despesas extras aprovadas ou em debate no Senado. A intenção é usar a Câmara, sob comando de Motta, como barreira para evitar novo desgaste fiscal e político.
Com informações de Gazeta do Povo