Brasília – O Ministério da Fazenda pretende anunciar ainda neste mês a primeira emissão de títulos da dívida externa brasileira denominada em yuan, voltada ao mercado financeiro da China. A operação deve ser detalhada durante viagem oficial do ministro da Fazenda, Dario Durigan, a Pequim e Xangai, agendada para 24 a 26 de junho.
Segundo o ministro, o plano vem sendo elaborado pelo Tesouro Nacional há cerca de dois anos e faz parte da estratégia de diversificar as fontes de financiamento do país. “O mundo olha para o Brasil como uma grande casa de oportunidade”, afirmou Durigan na 7ª reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, realizada em 10 de junho.
Desdolarização gradual
A iniciativa soma-se a outras medidas de redução da dependência do dólar adotadas no atual governo. Em janeiro de 2023, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva mencionou, em Buenos Aires, a ideia de uma moeda comum para Mercosul e Brics. Dois meses depois, Brasília e Pequim fecharam acordo para liquidação direta de comércio bilateral em real e yuan.
Estudos desde 2024
O Plano Anual de Financiamento de 2024 já previa emissões em moedas alternativas. Naquele ano, a então secretária de Assuntos Internacionais, Tatiana Rosito, confirmou a análise de títulos em yuan. Em junho de 2025, o secretário do Tesouro, Rogério Ceron, reforçou que a equipe avaliava “custos de captação e curva de aprendizagem” do mercado chinês.
Panda bonds e referência ao setor privado
No mercado, papéis em yuan são conhecidos como panda bonds. A emissão brasileira pretende, além de captar recursos, estabelecer referência para empresas que queiram acessar investidores asiáticos. A Suzano foi a pioneira latino-americana nessa modalidade ao lançar, no fim de 2024, R$ 960 milhões em títulos na moeda chinesa.
Dívida externa ganhará peso
Atualmente, 3,8% da dívida pública federal está em moedas estrangeiras. O Tesouro planeja elevar essa fatia para cerca de 7% na próxima década. Em abril deste ano, o governo captou € 5 bilhões em títulos em euro, a maior emissão internacional já realizada pelo país; 9% dos investidores foram asiáticos.
Riscos e contexto geopolítico
Especialistas citam o risco cambial: como a arrecadação ocorre em reais, eventual valorização do yuan aumentaria o custo da dívida, situação semelhante à de papéis em dólar. Analistas também lembram que o mercado em yuan é menos líquido que o em moeda americana, cuja participação nas reservas globais gira em torno de 58%, contra 2% a 3% do yuan.
A operação ocorre enquanto os Estados Unidos avaliam tarifas extras de até 25% a produtos brasileiros, baseadas na Seção 301 de sua legislação comercial. A decisão está prevista para 15 de julho e inclui críticas ao sistema de pagamentos Pix. Em 2024, o então presidente Donald Trump ameaçou sobretaxar países do Brics caso avançasse a criação de moeda comum.
Apesar do novo passo em direção ao mercado chinês, o volume a ser captado com os títulos em yuan ainda não foi divulgado pela Fazenda e tende a representar parcela modesta diante do estoque da dívida pública, hoje superior a R$ 8 trilhões.
Com informações de Gazeta do Povo