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Pacote de R$ 190 bilhões para a reeleição pressiona inflação e contraria o Banco Central

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O governo federal intensificou, nas últimas semanas, a liberação do chamado “kit reeleição”, um conjunto de programas fiscais e de crédito estimado em quase R$ 190 bilhões — o equivalente a 1,4% do PIB — com impacto direto sobre o consumo às vésperas do pleito de outubro. Foram quatro anúncios em 30 dias, e novos devem ser feitos até 4 de julho, quando entram em vigor as restrições da legislação eleitoral.

O que compõe o pacote

  • Reforma do IRPF: isenções e descontos que colocam R$ 33,5 bilhões no bolso das famílias.
  • Crédito subsidiado para motoristas de aplicativos e taxistas: linha de R$ 30 bilhões via BNDES.
  • Novo consignado para trabalhadores do setor privado: R$ 28 bilhões.
  • Desenrola 2.0: renegociação de dívidas, com potencial de liberar R$ 22 bilhões.
  • Programa Brasil Soberano: crédito subsidiado a empresas, R$ 21 bilhões.
  • Move Brasil 1 e 2: renovação de frotas de caminhões e ônibus, R$ 20,5 bilhões.
  • Setor imobiliário e construção: novas linhas de financiamento e expansão de programas existentes, somando R$ 27,5 bilhões.
  • Subsídios diretos: Luz do Povo (R$ 4,5 bilhões) e Gás do Povo (R$ 1,7 bilhão).

A elevação da faixa de isenção do Imposto de Renda para salários de até R$ 5 mil e o reajuste do salário mínimo já impulsionaram o consumo, que avançou 1,1% no primeiro trimestre, maior marca em um ano, segundo o IBGE.

Choque com a política monetária

Enquanto o Banco Central mantém a Selic em patamar restritivo, o Executivo amplia gastos e crédito. Para Antonio Ricciardi, economista do Daycoval, o dado de consumo “confirma a força da demanda doméstica”. Analistas da XP Investimentos, Bianca Lima e Rodolfo Margato, admitem que nem todo o volume anunciado deve ser contratado, mas avaliam que parte relevante “se traduzirá em maior consumo e investimento”.

Especialistas alertam para o risco inflacionário. A inflação acumulada em 12 meses alcançou 4,39% em abril, segundo cálculo de André Braz e Matheus Dias, do FGV Ibre, que classificam o quadro como “multifatorial e resistente”.

Pressões adicionais

  • Petróleo e gás: alta de 47,23% no atacado em abril; no acumulado em 12 meses, 31,51%.
  • Preços administrados: energia, combustíveis e planos de saúde avançaram 6,12% em um ano.
  • Demanda por eletricidade: crescimento estrutural levou à adoção da bandeira amarela em maio.

Sara Paixão, da Invest Smart XP, avalia que os novos estímulos “reforçam as pressões já existentes”, enquanto Rodrigo Simões, da FAC-SP, projeta taxa Selic inferior a dois dígitos apenas a partir de 2028 ou 2029.

Impacto no crescimento e nas contas públicas

O PIB subiu 1,1% no primeiro trimestre em relação ao anterior, mas o avanço anual recuou para 2%, a menor taxa em cinco anos. Carlos Lopes, do BV, vê o resultado como positivo, mas ressalta que “o nível de atividade mantém o Banco Central em alerta”. Para José Márcio Camargo, da Genial, a aceleração resulta, em parte, dos programas lançados no início de 2026.

Já a dívida bruta, que era 71,1% do PIB em 2022 e 78,6% em 2025, pode chegar a 88% em 2027, segundo projeções citadas por Simões. Ele lembra que 95% do orçamento estão comprometidos com despesas obrigatórias, restringindo a margem para investimentos.

Cenários para a inflação

O FGV Ibre traça três possibilidades para o IPCA:

  • Otimista: 5% em 2026, 4,2% em 2027 e 4,1% em 2028.
  • Base (mais provável): 5,2% em 2026, 4,7% em 2027 e 4,1% em 2028.
  • Pessimista: 5,45% em 2026, 5,1% em 2027 e 4,15% em 2028.

Em todos os cenários, a inflação de 2026 supera o centro da meta de 3%, reforçando a necessidade de juros altos pelo Banco Central.

Com informações de Gazeta do Povo