Dirigentes do PSDB articulam a indicação do deputado Aécio Neves (MG) como candidato à Presidência da República em 2026. A movimentação, segundo interlocutores do partido, mira menos o Palácio do Planalto e mais a sobrevivência institucional da sigla diante das exigências da cláusula de barreira.
Objetivo: manter acesso a fundo e tempo de TV
Desde 2018, quando sofreu esvaziamento após a Operação Lava Jato e a ascensão de Jair Bolsonaro, o PSDB vê sua bancada encolher. Para 2026, a lei determina que cada legenda eleja ao menos 13 deputados federais distribuídos em nove estados ou alcance 2,5% dos votos válidos para a Câmara, sob pena de perder recursos do Fundo Partidário e espaço na propaganda eleitoral.
Análises internas apontam que uma chapa presidencial, mesmo com chances mínimas de vitória, garante visibilidade nacional, presença em debates e palanques regionais capazes de impulsionar candidaturas proporcionais. “A lógica é menos chegar ao Planalto e mais preservar a marca tucana no Congresso”, resume o cientista político Elias Tavares.
Ciro Gomes fora do páreo
Antes de Aécio, o partido sondou Ciro Gomes, que ingressou no PSDB em 2025, mas ele anunciou pré-candidatura ao governo do Ceará em 16 de maio, abrindo espaço para o nome do mineiro.
Federação conta com 19 deputados
Hoje, a federação PSDB-Cidadania soma 19 parlamentares – 17 tucanos e 2 do Cidadania. O Solidariedade, também ameaçado pela cláusula, negocia apoio ao projeto, acrescentando mais 6 deputados. Ainda assim, o grupo precisaria ampliar as cadeiras para superar o novo patamar de 2026.
Apoio de lideranças do centro
Roberto Freire, figura histórica do Cidadania, defende o lançamento de Aécio para reconstituir um “centro democrático” fora da polarização entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato que encarna o campo bolsonarista.
O deputado Alex Manente (Cidadania-SP), vice-presidente da federação, adota o mesmo discurso: oferecer uma alternativa à disputa PT x PL enquanto garante musculatura legislativa.
Números em queda
Apesar de manter cerca de 1,2 milhão de filiados, o PSDB não elegeu governadores em 2022 e perdeu quadros para PSD, União Brasil e PL. O Cidadania tem aproximadamente 410 mil filiados; o Solidariedade, 370 mil.
Especialistas veem movimento de contenção
Para a analista Raquel Alves, da BMJ Consultores, não há ambiente para que o PSDB recupere o protagonismo das décadas passadas. Contudo, a candidatura de Aécio pode “colocar o partido na conversa” e render votos suficientes para ultrapassar a cláusula.
Escalada da cláusula de desempenho
Criada na reforma política de 2017, a regra já exigiu nove deputados eleitos em 2018 e 11 em 2022. O degrau de 2026 ampliou a pressão sobre partidos médios e pequenos, que passaram a recorrer a federações, fusões ou candidaturas de visibilidade para não perderem recursos.
Em entrevistas recentes, Aécio reconheceu que a legenda “quase acabou”, mas disse confiar que 2026 marcará a retomada tucana. Nos bastidores, correligionários admitem que o verdadeiro teste será a formação de bancadas capazes de garantir a continuidade do PSDB no cenário nacional.
A decisão final sobre a candidatura deve ser tomada nas convenções partidárias do próximo ano, mas a cúpula já trabalha com o cronograma de pré-campanha para sustentar o projeto de salvação eleitoral.
Com informações de Gazeta do Povo