Disputas políticas e estratégicas entre os membros mais recentes dos Brics estão colocando em xeque o projeto de transformar o bloco em um contraponto direto ao G7. A tensão ficou evidente em 15 de maio, quando a reunião de chanceleres realizada em Nova Délhi terminou sem consenso sobre a guerra no Irã.
No encontro, o ministro iraniano Abbas Araghchi pediu que os Brics condenassem Estados Unidos e Israel pela ofensiva iniciada em 28 de fevereiro. A proposta foi barrada, segundo ele, por um país “com relação especial” com Washington e Tel Aviv — alusão aos Emirados Árabes Unidos, que acusam Teerã de atacar alvos no Golfo e já interceptaram mísseis iranianos.
As divisões vêm após a maior ampliação do bloco desde sua criação. Apoiada por Rússia e China, a cúpula de Joanesburgo (agosto de 2023) aprovou a entrada de Egito, Etiópia, Emirados Árabes, Irã, Argentina e Arábia Saudita. Egito, Etiópia, Emirados Árabes e Irã assumiram suas vagas em janeiro de 2024, enquanto a Argentina retirou a candidatura e Riad ainda não oficializou a adesão. A Indonésia deve ingressar em 2025.
Com a expansão, conflitos regionais ganharam palco interno. Egito e Etiópia, por exemplo, acumulam anos de atritos em torno da Grande Barragem do Renascimento, no rio Nilo Azul. A rivalidade reacendeu em 16 de maio, quando ministros egípcios se reuniram com o presidente eritreu Isaias Afwerki e anunciaram cooperação marítima, gesto visto por Adis Abeba como provocação.
Apesar dos impasses, o presidente russo Vladimir Putin sustenta que o grupo já superou o G7 em Produto Interno Bruto (PIB) calculado pela Paridade do Poder de Compra. Em 1992, lembrou ele num evento preparatório para a cúpula de 2024, o G7 detinha 45,5% do PIB global contra 16,7% dos Brics. Em 2023, a participação teria mudado para 29,3% e 37,4%, respectivamente.
Especialistas, porém, veem limites nessa influência. Para Mir Mostafizur Rahaman, colunista do indiano Financial Express, “queixas compartilhadas não geram automaticamente uma estratégia compartilhada”. Cleiton Vinícius Pegoraro de Araújo, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, avalia que Moscou não tem força para moldar o bloco como antagonista pleno do G7. Já Murilo Borsio Bataglia, da Estácio Brasília, lembra que decisões por consenso e a falta de estrutura política comum dificultam posições unificadas em temas sensíveis, diferentemente do que ocorre no G7.
Assim, enquanto continua a planejar novas adesões e reivindicar reformas na governança global, o Brics enfrenta o desafio de harmonizar interesses cada vez mais heterogêneos para sustentar sua ambição de polo alternativo de poder.
Com informações de Gazeta do Povo