Curitiba – Quase 50 anos depois de ver 60% de seus cafezais destruídos pela Geada Negra de 17 de julho de 1975, o Paraná volta a ganhar relevância nacional, agora focado na produção de cafés especiais.
Do auge à devastação
Entre a década de 1960 e o início dos anos 1970, o estado chegou a colher 21,3 milhões de sacas por safra, o equivalente a 64% de todo o café produzido no Brasil, segundo a Secretaria de Estado da Agricultura e do Abastecimento (Seab). O cenário mudou repentinamente quando temperaturas extremas congelaram a seiva das plantas, dizimando cerca de 1,1 milhão de hectares.
Nova matriz agrícola e êxodo rural
A perda do principal produto agropecuário provocou migração de trabalhadores para centros urbanos e outros estados, ao mesmo tempo em que propriedades paranaenses passaram a investir em soja, milho, feijão, avicultura e suinocultura.
Pesquisa como alicerce da retomada
Para reduzir o impacto de futuros eventos climáticos, o Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-Paraná) desenvolveu cultivares mais resistentes e difundiu técnicas de adensamento das lavouras. Aliado a processos de pós-colheita — como secagem em terreiros suspensos e fermentação controlada — o foco passou a ser a elevação da pontuação sensorial do grão.
A Câmara Setorial do Café calcula que até 30% da safra paranaense já atenda ao padrão de café especial, segmento que pode dobrar a remuneração do produtor em relação à saca convencional.
Certificações impulsionam a reputação
Em 2012, o café do Norte Pioneiro tornou-se o primeiro produto do Paraná a receber selo de Indicação Geográfica (IG) do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi). O mesmo território e o município de Mandaguari conquistaram posteriormente o status de Denominação de Origem (DO), nível máximo de certificação.
No início de 2026, o mapa de excelência foi ampliado com a 24ª IG do estado: o café da Serra de Apucarana, que envolve cerca de 300 produtores em três municípios.
Turismo nas fazendas
O reconhecimento de qualidade permitiu diversificar a renda no campo. Criada em 2009, a Rota do Café reúne propriedades em Londrina, Ibiporã e Ribeirão Claro, oferecendo trilhas em cafezais, museus e degustações guiadas.
Indústria celebra tradição paranaense
A marca mineira de cafés especiais Coffee++ lançou, nesta semana, a linha “Paraná”, feita com grãos de pequenos produtores organizados em cooperativa. “A história do café no Brasil não pode ser contada sem o Paraná”, afirmou o fundador da empresa, Leonardo Montesanto.
Números atuais
Atualmente, o estado possui pouco mais de 26 mil hectares cultivados e produz menos de 1 milhão de sacas por ano — cerca de 4% do volume mineiro, líder nacional. Apesar da área reduzida, a aposta em qualidade recoloca o Paraná na rota dos cafés de alto valor agregado.
Com informações de Gazeta do Povo