O forte avanço do agronegócio sustentou quase todo o crescimento da economia brasileira em 2025, enquanto a indústria de transformação continuou praticamente estagnada. Dados consolidados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o Produto Interno Bruto (PIB) aumentou 2,3% no ano, alcançando R$ 12,7 trilhões.
O resultado, porém, foi impulsionado sobretudo pela agropecuária, que registrou expansão de 11,7% e garantiu participação recorde de 7,5% em todas as riquezas geradas no país desde o início da série histórica, em 1996. Sem o desempenho do campo, o avanço do PIB teria ficado em 1,5%. Já a indústria de transformação subiu apenas 1,4% no período.
Tarifaço dos EUA escancara fragilidade
A aplicação, no ano passado, de tarifas elevadas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros de maior valor agregado atingiu setores estratégicos e evidenciou a dependência do país de matérias-primas. Embora o Brasil lidere as exportações globais de alimentos, sua estrutura fabril permanece encolhida.
Pauta externa concentrada em bens não processados
Em 2025, o país exportou volume recorde de US$ 348,7 bilhões, composto majoritariamente por minério de ferro, grãos e petróleo bruto. A China, principal destino das vendas nacionais — mais de US$ 100 bilhões — comprou quase exclusivamente insumos básicos.
Levantamento do Atlas da Complexidade Econômica, ligado à Universidade de Harvard, indica que, desde 2009, o Brasil acrescentou apenas cinco itens à lista de exportações relevantes, todos de baixa ou moderada sofisticação. O estudo aponta ausência de migração de capital e trabalho para setores de eletrônicos, maquinário avançado ou biotecnologia.
“Custo Brasil” drena R$ 1,7 trilhão por ano
Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), fatores estruturais como gargalos logísticos, insegurança jurídica e alta burocracia retiram R$ 1,7 trilhão anuais da capacidade de investimento das empresas. A dependência do transporte rodoviário, aliado à infraestrutura ferroviária e hidroviária limitada, eleva o preço do frete e reduz competitividade.
Também pesa a carga tributária: embora a indústria represente 23,4% do PIB, responde por 35,2% dos tributos federais (excluídas as contribuições previdenciárias). Taxas de juros elevadas, mantidas pelo Banco Central para conter a política fiscal expansionista, tornam o crédito de longo prazo caro e dificultam a modernização das fábricas.
Novo plano industrial gera ceticismo
Para tentar reverter o quadro, o governo lançou em 2024 o programa Nova Indústria Brasil (NIB), que promete R$ 300 bilhões em financiamentos e subsídios até 2026, apostando em compras públicas e exigências ambientais para estimular a produção local. Especialistas, porém, veem risco de repetir políticas anteriores que não conseguiram elevar a complexidade produtiva.
O economista Samuel Pessôa, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas, avaliou que a proposta carece de análise dos erros passados. Já Mansueto Almeida, economista-chefe do BTG Pactual, advertiu que incentivos devem priorizar inovação com menor custo fiscal, citando o fundo Criatec, operado pelo BNDES, como modelo focado em descobertas tecnológicas.
Enquanto o agronegócio rompe sucessivos recordes, a indústria brasileira segue enfrentando alto custo de produção, tributação pesada e obstáculos logísticos, mantendo o país dependente da exportação de commodities.
Com informações de Gazeta do Povo