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Trabalho de esgoto vira risco de morte para cristãos no Paquistão, aponta relatório

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Uma série de acidentes fatais envolvendo varredores de esgoto no Paquistão expôs o que organizações de direitos humanos classificam como discriminação sistêmica contra a comunidade cristã, historicamente concentrada em funções de saneamento. Em comunicado divulgado em 12 de maio de 2026, o grupo Minority Concern responsabilizou a falta de equipamentos de proteção e as práticas de contratação por pelo menos oito mortes registradas desde abril.

Mortes recentes

O caso mais recente ocorreu em 7 de maio, quando Shabbir Masih, 33 anos, pai de três filhos, inalou gases tóxicos a 7,5 metros de profundidade em uma tubulação de esgoto de Faisalabad. Três dias antes, Shakeel Masih e Samar Masih faleceram em circunstâncias semelhantes no distrito de Sahiwal. No mês anterior, outros três operários cristãos morreram durante a limpeza de redes subterrâneas em Karachi, na província de Sindh.

Equipamentos insuficientes

De Lahore, o católico Shafiq Masih, 49 anos, contestou a versão oficial de que há Equipamentos de Proteção Individual (EPI) disponíveis. “Cada escritório de campo da Autoridade de Água e Saneamento tem, no máximo, um traje, mostrado apenas a visitantes ou à imprensa. Mesmo esse, importado do Japão, é pesado e impraticável”, relatou. O trabalhador, que ajudou a criar um sindicato com cerca de 2.900 membros em 2023, afirma que o número real de vítimas é superior ao divulgado.

Segundo ele, após a recusa de funcionários cristãos em entrar nos bueiros sem EPI, gestores passaram a contratar diaristas para executar o mesmo serviço.

Decisões judiciais e iniciativas oficiais

Em dezembro de 2025, o Tribunal Superior de Islamabad proibiu a expressão “somente cristãos” em anúncios de vagas na área de limpeza e exigiu reformas para reduzir as fatalidades. De acordo com Manzoor Masih, representante da Comissão Nacional de Direitos Humanos (NCHR), as violações diminuíram após notificações formais, mas as mortes continuam preocupando o órgão.

Um mês antes, em novembro de 2025, a NCHR ingressou com petição no Tribunal Constitucional Federal solicitando o fim da limpeza manual de esgotos, por entender que a atividade sem proteção fere garantias constitucionais de vida, dignidade e condições seguras de trabalho.

Números da desigualdade

Relatório da NCHR de 2024, intitulado “Risco do Trabalho de Saneamento no Paquistão”, estimou que operários de saneamento representam 2 % dos 225 milhões de habitantes do país, sendo aproximadamente 80 % cristãos. Entre 42 trabalhadores entrevistados em Karachi, 78,6 % nunca receberam EPI, e 57,1 % relataram lesões — de danos pulmonares a articulações deslocadas. O documento registrou ao menos 14 mortes entre 2022 e 2024, principalmente na província de Punjab, causadas por gases tóxicos e práticas inseguras.

Os cristãos compõem cerca de 1,37 % da população paquistanesa e relatam, há décadas, serem direcionados a funções de limpeza de esgoto, historicamente associadas a castas marginalizadas no sul da Ásia.

Com informações de Gazeta do Povo