Brasília — A Guiana registrou US$ 761 milhões (cerca de R$ 3,7 bilhões) em receitas de petróleo no primeiro trimestre de 2026, o maior resultado trimestral desde o início da produção comercial do país, em 2019. O salto é atribuído principalmente à escalada dos preços globais após o início da guerra no Irã, em 28 de fevereiro, que levou ao fechamento parcial do Estreito de Ormuz, rota por onde passa 20% do petróleo consumido no mundo.
Preço do Brent quase dobra e impulsiona caixa do governo
Segundo o Ministério das Finanças guianense, a renda semanal obtida com vendas de petróleo saltou 68%: de US$ 370 milhões para US$ 623 milhões. No mesmo período, o barril do Brent subiu de US$ 72 para mais de US$ 125, maior patamar desde 2022. O bloqueio é mantido tanto pelo Irã quanto pelos Estados Unidos, que travam negociações sem avanço para encerrar o confronto.
Europa vira principal destino
Com o fornecimento do Golfo Pérsico ameaçado, refinarias europeias passaram a pagar prêmios mais altos pelo petróleo leve guianense. Em 2024, 66% das exportações da Guiana já tinham a Europa como destino; em janeiro deste ano, a fatia chegou a 75%, de acordo com o portal especializado OilNOW. O movimento começou após as sanções impostas à Rússia em 2022, que levaram a União Europeia a diversificar seus fornecedores. Em 2025, Estados Unidos, Noruega e Cazaquistão eram os três maiores vendedores de petróleo ao bloco.
Produção em rápida expansão
A extração guianense, inexistente até 2019, alcançou média de 716 mil barris diários em 2025 e ultrapassou 900 mil barris por dia em fevereiro de 2026, colocando o país atrás apenas de Brasil e Venezuela na América do Sul. Toda a produção sai do Bloco Stabroek, a cerca de 200 km da costa, operado por um consórcio liderado pela ExxonMobil, que inclui Chevron e a estatal chinesa CNOOC. A meta é chegar a 1,7 milhão de barris por dia até 2030, com oito projetos já anunciados, incluindo o primeiro focado em gás natural.
Mais royalties à vista
Pelo contrato firmado em 2016, a Guiana recebe atualmente cerca de 14,5% da receita de cada barril, enquanto o restante cobre o investimento inicial das companhias. A disparada dos preços acelera a recuperação desses custos: quando quitados, a fatia governamental pode se aproximar de 50%.
Impacto econômico recorde
O Produto Interno Bruto (PIB) real da Guiana cresce em média 47% ao ano desde 2022. O Fundo Monetário Internacional projeta expansão de 16,2% em 2026; o Banco Mundial estima 16,3% neste ano e 23,5% em 2027. Apesar do avanço, 58% da população ainda vive abaixo da linha da pobreza, segundo o Banco Interamericano de Desenvolvimento.
Falta de refinarias expõe fragilidade
Embora exporte todo o petróleo bruto extraído, o país não possui refinarias e importa combustíveis como gasolina e diesel, principalmente dos Estados Unidos. Em 13 de abril, atrasos no envio internacional provocaram escassez temporária, levando o primeiro-ministro Irfaan Ali a divulgar o cronograma de chegada de novos navios e a defender retomada de planos para instalar unidades de refino em território nacional.
Mercado global diversificado
Entre 20% e 30% das vendas externas da Guiana têm como destino os Estados Unidos; o restante é dividido entre América Central, Caribe e, cada vez mais, Ásia. De janeiro a maio de 2025, 40 dos 93 navios partiram para Holanda ou Panamá — portos que funcionam, respectivamente, como porta de entrada para o Norte europeu e como hub de redistribuição via Canal do Panamá. Em 2025, 24 embarques seguiram para países asiáticos; no ano anterior, não houve nenhum.
Disputa geopolítica e fronteira em tensão
A presença conjunta de ExxonMobil e CNOOC transforma a Guiana em ponto de convergência entre Estados Unidos e China. O arranjo também funciona como “seguro” diante da disputa territorial com a Venezuela pelo Essequibo. Após a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro pelos EUA, em janeiro, a pressão diminuiu, mas o governo de Georgetown mantém alerta.
Analista vê lições para o Brasil
Para o consultor em negócios internacionais Marco Aurelio da Silva, o desempenho guianense resulta de “contratos ágeis e previsibilidade regulatória”, fatores que, segundo ele, faltam ao Brasil. O especialista afirma que o sucesso do vizinho reforça o potencial da Margem Equatorial brasileira, geologicamente espelhada à bacia da Guiana.
Com a combinação de preços elevados, expansão produtiva e demanda europeia, a Guiana consolida sua posição como nova fonte de petróleo de baixo custo e baixa intensidade de carbono, ainda que dependa de infraestrutura externa para refino e continue vulnerável a oscilações do mercado internacional.
Com informações de Gazeta do Povo