Os principais alvos da Operação Compliance Zero, que apura irregularidades envolvendo o Banco Master, protagonizam uma disputa aberta por acordos de colaboração premiada. A lista inclui o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, o cunhado dele Fabiano Zettel, o ex-presidente do Banco de Brasília (BRB) Paulo Henrique Costa e o advogado Daniel Monteiro.
Quem delatar primeiro tende a ganhar mais
Especialistas em direito penal ouvidos pela reportagem explicam que, nesse tipo de negociação, quem chega primeiro costuma receber reduções maiores de pena e multa. Além da ordem de chegada, contam o ineditismo e a relevância das informações apresentadas.
O criminalista Márcio Nunes afirma que, neste momento, “há uma competição natural entre investigados”, cenário comparado por analistas ao Dilema do Prisioneiro, conceito da Teoria dos Jogos que descreve decisões estratégicas em ambiente de desconfiança mútua.
Vorcaro tem mais dados, mas negocia devagar
Apontado como peça central do esquema, Daniel Vorcaro teria acesso ao maior volume de operações suspeitas e, portanto, à maior quantidade de provas. Porém, há pelo menos duas semanas sua defesa tenta ajustar detalhes do acordo com a Polícia Federal sem chegar a um consenso, o que, segundo juristas, pode reduzir o valor de sua colaboração.
A doutora em Direito Público Clarisse Andrade ressalta que “tempo é ativo negociável”: quanto mais Vorcaro demora, maior a chance de outros investigados entregarem informações antes dele.
Zettel e Costa buscam espaço
Nos bastidores, avalia-se que Fabiano Zettel teria menos elementos inéditos para oferecer, pois parte do material já foi apreendido em quatro fases da operação. Ainda assim, a possibilidade de ficar sem acordo pode levá-lo a aprofundar seu relato.
Já o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, trocou recentemente a equipe de advogados, movimento interpretado como preparação para uma delação. Por ter comandado um banco diretamente impactado pelo esquema, ele pode detalhar decisões internas e ligações com agentes públicos, o que ameaça o protagonismo de Vorcaro.
Múltiplas delações reduzem seletividade
Para o especialista Matheus Herren Falivene, acordos múltiplos funcionam como “mecanismo de pressão mútua”: cada colaborador teme ser citado por outro e tende a revelar mais nomes para maximizar vantagens. Isso diminui o risco de proteção seletiva de autoridades.
Filtro institucional
Os eventuais acordos precisam passar por Polícia Federal, Procuradoria-Geral da República e, em última instância, pelo Supremo Tribunal Federal. O relator do caso, ministro André Mendonça, já sinalizou que só homologará colaborações “robustas e consistentes”.
Enquanto as defesas correm para organizar documentos, juristas veem incentivos fortes para que todos fechem acordo. “Quem falar menos ou por último tende a perder espaço”, resume Marsiglia.
Com informações de Gazeta do Povo