Brasília — O número de desligamentos por justa causa no Brasil somou 638,7 mil casos nos 12 meses encerrados em dezembro de 2025, volume recorde da série iniciada em 2004 e equivalente a 2,6% de todos os encerramentos de contrato no período.
Mercado aquecido e menor medo do desemprego
O economista Bruno Imaizumi, da consultoria 4Intelligence, que compilou os dados a partir do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), destaca que o avanço se intensificou após a pandemia. Em igual intervalo encerrado em dezembro de 2019, haviam sido registradas 216 mil demissões por justa causa — número que praticamente triplicou em seis anos.
Especialistas atribuem o movimento a um mercado de trabalho aquecido. Em fevereiro de 2026, a taxa de desemprego medida pelo IBGE caiu para 5,4%, uma das mais baixas da série. Com mais vagas disponíveis, trabalhadores se sentem menos ameaçados pela perda do emprego, enquanto empresas afrouxam critérios de contratação para preencher postos, elevando o risco de falhas operacionais que resultam em punições máximas.
Tecnologia amplia controle sobre funcionários
Ferramentas de monitoramento digital, capazes de medir tempo efetivamente trabalhado e uso de redes sociais no expediente, fornecem mais subsídios para que empregadores comprovem faltas graves. Entre os comportamentos apontados, ganha destaque o vício em apostas on-line durante o horário de trabalho, avalia Ivandick Rodrigues, professor de Direito do Trabalho da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Rotatividade voluntária também cresce
Nos mesmos 12 meses até dezembro de 2025, 9 milhões de pessoas pediram demissão por iniciativa própria, alta de 5,9% ante o período anterior. Para Imaizumi, o índice serve de termômetro do fortalecimento do mercado: quem sai acredita conseguir recolocação rápida ou melhores condições, sobretudo após a volta ao trabalho presencial e a entrada da geração Z, que prioriza qualidade de vida.
Efeito de programas de renda mínima
Rodrigues acrescenta que a renda garantida por programas como o Bolsa Família reduz a resistência a desligamentos, sejam eles voluntários ou por justa causa. Setores como a fruticultura relatam dificuldade para contratar temporários, pois beneficiários temem perder o auxílio. Dados de fevereiro mostram que nove estados têm mais famílias inscritas no Bolsa Família do que trabalhadores com carteira assinada; são 38,6 beneficiários para cada 100 empregados formais.
Com informações de Gazeta do Povo