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Conversas sigilosas e pressão econômica: o que está por trás dos gestos recentes entre EUA e Cuba

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Estados Unidos e Cuba mantêm desde fevereiro um canal de diálogo reservado que avança no mesmo momento em que Washington aprofunda sanções contra a ilha e, pontualmente, flexibiliza barreiras estratégicas. O cenário, que combina pressões públicas e entendimentos discretos, suscita dúvidas sobre os objetivos de ambos os governos.

Navios russos furam bloqueio de combustível

A medida de maior impacto da Casa Branca continua sendo o bloqueio petrolífero imposto meses atrás, responsável por agravar a crise energética cubana. Mesmo assim, nos últimos dias, o governo dos EUA autorizou a entrada de duas embarcações russas carregadas de petróleo em portos cubanos. A administração Trump afirma que não mudou a política de sanções e que avaliará “caso a caso” pedidos semelhantes, sem esclarecer as razões da liberação.

Analistas interpretam o gesto como tentativa de conter uma crise humanitária sem aliviar a pressão principal sobre o regime de Miguel Díaz-Canel. Países como México e Venezuela seguem proibidos de enviar recursos energéticos à ilha.

Canal Rubio-Castro sob sigilo

O site Axios revelou que o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, conversa desde fevereiro com Raúl Guillermo Rodríguez Castro, neto do ex-ditador Raúl Castro. Em março, Díaz-Canel admitiu na TV estatal que integrantes do governo cubano negociam com Washington, mas classificou as tratativas como “difíceis”.

À revista Newsweek, o líder cubano acusou os EUA de abrir diálogos para depois atacar outros países, ampliando a desconfiança interna. A Casa Branca confirmou os contatos e declarou que “os dirigentes cubanos querem e deveriam chegar a um acordo”.

Para o cientista político Marcio Coimbra, o sigilo protege ambas as partes e indica negociações “estritamente transacionais”. Segundo ele, Washington tenta afastar Rússia e China da ilha e conter a migração, enquanto Havana busca evitar o colapso total. Questões como possíveis anistias a dirigentes do Partido Comunista em troca de abertura econômica estariam fora dos holofotes, avalia o especialista.

Libertações parciais de presos e apoio familiar a reformas

Um eventual avanço nas negociações foi associado ao anúncio conjunto de Cuba e Vaticano para libertar 51 presos políticos; até 4 de abril, apenas 27 haviam sido soltos, segundo a ONG Prisoners Defenders. No indulto de 2.010 detentos divulgado na Semana Santa, nenhum preso político foi beneficiado.

Sandro Castro, outro neto de Fidel Castro, vem defendendo publicamente um acordo com os EUA para “tornar a população capitalista” e relata enfrentar os mesmos apagões e carências que os demais cubanos.

Pressão econômica e protestos em alta

A estratégia declarada de Washington é provocar mudança de regime. A queda do turismo, os apagões quase diários e a falta de combustível confirmam o colapso econômico descrito pela Casa Branca como ferramenta de negociação. “A aposta é levar Díaz-Canel a um beco sem saída em que a única saída pacífica seja aceitar os termos americanos”, resume Coimbra.

Em março, o Observatório Cubano de Conflitos contabilizou 1.245 protestos, ações cívicas e denúncias — aumento em relação aos 1.185 registros de fevereiro e quase 80% acima do mesmo período de 2025. A internacionalista argentina Micaela Hierro Dori, que atua pela democracia na ilha, diz aguardar resultados concretos, mas mantém ceticismo: “A ditadura promete reformas superficiais, liberta criminosos comuns e volta ao discurso anti-imperialista para se manter no poder”.

Com informações de Gazeta do Povo