Mesmo com o desemprego no menor nível da série histórica, o Brasil vê o endividamento familiar permanecer elevado. Em janeiro de 2026, 79,5% dos lares possuíam dívidas, índice perto do recorde observado pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Desses, 29,3% estavam com contas em atraso e 12,7% declararam não ter condições de pagar.
Juros pressionam orçamento
Economistas apontam que a combinação de juros médios superiores a 30% ao ano — e de mais de 300% no crédito rotativo — corrói a renda e empurra a população para o crédito. “O real está desvalorizado e o que se paga à maior parte das pessoas não cobre suas necessidades”, afirma Bruno Corano, CEO da Corano Capital.
Cartão de crédito domina dívidas
O levantamento da CNC mostra que 85,4% das pendências estão vinculadas ao cartão de crédito. Para 19,5% das famílias, mais da metade da renda já é comprometida com parcelas, deixando menos de 50% do orçamento para despesas essenciais.
Comparação internacional
Enquanto Estados Unidos e China registram índices de endividamento semelhantes (entre 60% e 80%), nesses países o crédito costuma financiar ativos, como imóveis. No Brasil, grande parte é destinada a despesas correntes. A inadimplência também difere: cerca de 4% nos EUA (8% no rotativo em crises) contra 29% no mercado brasileiro.
13º salário não aliviou cenário
Segundo Pedro Ricco, CEO do Delta Global Bank, o pagamento do décimo terceiro salário não reduziu de forma significativa a inadimplência. “As famílias estão muito apertadas por juros e impostos elevados”, diz.
Risco de superendividamento
Thiago Oliveira, CEO da fintech Monest, alerta que os brasileiros mantêm, em média, contas em cinco instituições financeiras, o que mascara a real exposição ao crédito. Pesquisa Serasa/Opinion Box (novembro de 2024) aponta que 57% dos endividados relacionam o início dos problemas às apostas esportivas; 44% recorrem aos jogos para tentar pagar dívidas.
Novo consignado amplia acesso, mas preocupa
Lançado em março de 2025, o consignado privado — chamado de “crédito do trabalhador” pelo governo — movimentou R$ 52 bilhões até janeiro de 2026, abaixo dos R$ 100 bilhões projetados. Especialistas, como o engenheiro de produtos de crédito Elber Laranja, veem risco de que a modalidade apenas troque dívidas, sem melhorar a capacidade de pagamento.
Política fiscal e taxa de juros
Analistas responsabilizam a fragilidade fiscal pela manutenção dos juros altos. Gastos públicos maiores elevam a percepção de risco, encarecem o financiamento do governo e exigem resposta monetária mais dura para conter a inflação. “Sistema endividado, sensível a juros e sustentado por política fiscal frágil historicamente não termina bem”, resume Bruno Corano.
Com informações de Gazeta do Povo