Brasília — Duas auditorias determinadas pelo Banco Central (BC) em 2024 sobre uma carteira de R$ 13 bilhões em precatórios do Banco Master não identificaram irregularidades, mas relatórios recentes do Tribunal de Contas da União (TCU) e da Controladoria-Geral da União (CGU) apontam superavaliação ou até inexistência de parte desses ativos.
A revisão dos números foi conduzida pela KPMG, que classificou os valores como “aceitáveis” após examinar documentos e processos judiciais. Ainda assim, os órgãos de controle sustentam que há títulos sem registro público e que a instituição utilizou manobras contábeis para mascarar a falta de liquidez. O impasse expõe investidores a possíveis perdas acima do limite de R$ 250 mil por CPF coberto pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e eleva o custo de captação em todo o sistema financeiro.
Captação de curto prazo x ativos de longo prazo
O Banco Master obtinha recursos de investidores de varejo ancorado na proteção do FGC e aplicava o capital em precatórios — dívidas judiciais de recebimento demorado — e em empréstimos de longo prazo. O descompasso entre a liquidez imediata das aplicações dos clientes e o prazo extenso dos ativos acendeu sinais de alerta no mercado, que passou a questionar a real precificação e até a existência de parte dos papéis.
Cronologia da intervenção regulatória
Outubro de 2023: o BC limitou o crescimento da carteira de precatórios.
Março de 2024: exigiu auditoria externa rigorosa sobre origem e valores dos créditos.
Setembro de 2024: identificou direitos creditórios sem registro em cartório ou sistema público.
Novembro de 2024: questionou práticas contábeis usadas para ocultar iliquidez.
2025: a KPMG deixou de auditar o banco.
Março e abril de 2026: o TCU divulgou relatório crítico e a CGU abriu processo contra ex-dirigentes do BC por suspeita de favorecimento.
Auditores x órgãos de controle
Em nota, a KPMG informou que seu trabalho se concentrou na expectativa de recebimento judicial dos precatórios e que não pode comentar casos de ex-clientes por cláusulas de confidencialidade. O escritório Galdino Advogados, contratado para avaliar riscos jurídicos, declarou não ter encontrado falhas processuais, mas ressaltou que não foi contratado para aferir critérios econômicos ou financeiros.
Já o TCU, no relatório AudBancos, sustenta que o Master “postergava o reconhecimento da iliquidez por engenharias financeiras de repasse”. A CGU, por sua vez, vê “risco jurídico severo” por ausência de registro dos créditos.
Até o momento, o Banco Master não se pronunciou publicamente sobre as divergências entre laudos privados e apontamentos dos órgãos de controle.
Com informações de Gazeta do Povo