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Risco de nova paralisação dos caminhoneiros expõe fragilidade logística do Brasil

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Brasília, 24 mar. 2026 – A possibilidade de uma greve nacional de caminhoneiros, que será votada pela categoria nesta quinta-feira (26), reacendeu o alerta no governo federal e no mercado. Responsáveis por dois terços da carga transportada no país, os profissionais negociam em Brasília e mantêm a ameaça de parar, cenário que ressalta a alta dependência brasileira das rodovias.

Custos logísticos em alta

Levantamento do Instituto de Logística e Supply Chain (Ilos) aponta que, em 2025, os custos logísticos chegaram a R$ 1,96 trilhão, o equivalente a 15,5 % do Produto Interno Bruto (PIB). Em 2014, essa fatia era de 10,4 %. O avanço é atribuído ao descompasso entre o crescimento de 25 % no volume de cargas, nos últimos dez anos, e a estagnação da malha viária.

No ano passado, 63,4 % das mercadorias circularam por rodovias; ferrovias responderam por 18 %, o transporte aquaviário por 14,6 % e o dutoviário por 4,1 %. Nos Estados Unidos, a malha ferroviária absorve 43 % da carga, deixando 26 % para as estradas. Na Rússia, os trilhos movimentam 81 % do total.

Infraestrutura limitada

O Brasil possui cerca de 30 mil quilômetros de ferrovias, segundo a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), enquanto os Estados Unidos contam com 293 mil quilômetros, considerando vias secundárias e pátios. Nas estradas brasileiras, apenas 12,6 % da malha é pavimentada; desse total, 62,1 % está em condição regular, ruim ou péssima, conforme a Confederação Nacional do Transporte (CNT).

Efeito na economia

A adoção do modelo just in time pela indústria, que reduz estoques para cortar custos, torna o sistema mais vulnerável a interrupções. A greve de 2018, que durou dez dias, derrubou a produção industrial em 10,9 % naquele mês, gerou inflação cinco vezes acima da projetada e retirou um ponto percentual do PIB anual. O Ministério da Fazenda estimou prejuízo direto de R$ 15,9 bilhões.

Tentativas de diversificação

Para reduzir a dependência do asfalto, o Marco Legal das Ferrovias, aprovado no governo Jair Bolsonaro, introduziu o regime de autorizações com a meta de elevar a participação ferroviária para 35 %. Também foi lançado o programa BR do Mar, de incentivo à cabotagem, mas empresas ainda relatam altos custos portuários e tributários.

No governo atual, projetos ferroviários integram o Novo PAC. A Ferrogrão, planejada para ligar Mato Grosso ao Arco Norte, segue paralisada por entraves judiciais e ambientais; o Ibama condicionou a retomada do licenciamento a novos estudos, o que pode prolongar o cronograma por anos.

Enquanto isso, o impasse com os caminhoneiros deve definir, nos próximos dias, se o país enfrentará outra paralisação capaz de afetar o abastecimento, pressionar preços e testar mais uma vez a resiliência da economia nacional.

Com informações de Gazeta do Povo