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Guerra entre integrantes expõe fragilidade do Brics e põe aposta brasileira em dúvida

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A ofensiva norte-americana contra o Irã desencadeou bombardeios iranianos contra Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita — todos integrantes ou convidados do Brics — e escancarou a incapacidade do grupo de reagir de forma coordenada. Desde o início das hostilidades, o bloco que reúne Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Egito, Etiópia, Indonésia, Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos mantém silêncio oficial, apesar de ter condenado ações semelhantes em 2025.

A crise ocorre enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) investe na sigla como pilar de sua política externa. Na segunda-feira, 9 de março, Lula recebeu em Brasília o presidente sul-africano Cyril Ramaphosa. Ambos pediram “paz” em declarações separadas, mas evitaram citar o Brics como fórum apto a mediar o conflito.

Divergências antigas e expansão problemática

Especialistas avaliam que a paralisia evidencia um problema estrutural. Para o estrategista internacional Cezar Roedel, doutor pela PUCRS/UniBonn, “o Brics nunca foi um bloco coeso” e se tornou ainda mais heterogêneo após a entrada formal de Irã, Emirados Árabes, Egito e Etiópia em 2024. Arábia Saudita, convidada no mesmo pacote, participa de reuniões, mas ainda não é membro pleno.

O cientista político Elton Gomes, da Universidade Federal do Piauí (UFPI), ressalta a assimetria de poder: China sustenta o peso econômico, Rússia projeta força militar, enquanto países como Brasil, Índia e África do Sul exercem influência limitada. “Nenhum deles consegue contrabalançar o peso de Pequim ou Moscou — muito menos o dos Estados Unidos e da Otan”, afirma.

Interesses próprios limitam reação

Segundo Roedel, as potências do bloco priorizam questões internas, como a proteção das rotas de petróleo que passam pelo Estreito de Ormuz. “Não existe incentivo para uma reação política forte”, diz. Ele aponta ainda o impasse sobre a criação de uma moeda alternativa ao dólar como sinal de desorganização estratégica: Índia evita o tema, Rússia pressiona e China baixou o tom.

Documento conjunto ignora papel político do Brics

No comunicado final do encontro em Brasília, Brasil e África do Sul condenaram os ataques de 28 de fevereiro contra o Irã, pediram cessação das hostilidades e defenderam respeito ao direito internacional. O Brics apareceu apenas em tópicos econômicos, como a intenção de ampliar o comércio interno e reduzir a dependência do dólar.

Para analistas, o episódio confirma que o bloco funciona mais como plataforma de sinalização política — “photo opportunity”, nas palavras de um diplomata ouvido por Gomes — do que como aliança capaz de resolver crises internacionais. A aposta brasileira, portanto, enfrenta o teste mais duro desde a criação do grupo em 2009.

Com informações de Gazeta do Povo