Governos europeus correm para reforçar posições militares após uma série de ataques atribuídos ao Irã e a grupos aliados no Oriente Médio. Mesmo sem participação direta na ofensiva iniciada por Estados Unidos e Israel, capitais como Londres, Paris, Berlim e Roma já admitem colaborar na contenção de investidas iranianas contra parceiros ocidentais na região.
Drone iraniano atinge base britânica no Chipre
O sinal mais claro de que o conflito pode atravessar o Mediterrâneo ocorreu na madrugada de segunda-feira, 2 de março, quando um drone Shahed, fabricado no Irã, danificou uma instalação aérea do Reino Unido em Chipre, Estado-membro da União Europeia (UE). Segundo o Ministério da Defesa britânico, o artefato foi disparado do Líbano, onde atua o Hezbollah, grupo considerado satélite de Teerã.
Embora não tenham sido registradas vítimas, Londres enviou reforços militares para a ilha, considerada estratégica para operações no Mediterrâneo Oriental. A Itália também deslocou navios de guerra à área para apoiar a defesa cipriota.
Bruxelas alerta para “exportação” da guerra
Na quinta-feira, 5 de março, a chefe da diplomacia da UE, Kaja Kallas, declarou que Teerã “exporta a guerra” ao tentar ampliar o fronte para países vizinhos. Ela defendeu a desescalada, mas reconheceu que a instabilidade representa um risco direto à segurança europeia.
Especialistas falam em “escalada por arrasto”
Para Eduardo Galvão, professor de relações internacionais do Ibmec Brasília, a presença de bases e interesses europeus no Oriente Médio cria uma “zona cinzenta” capaz de arrastar o continente para o conflito sem decisão formal. Kleber Galerani, da Universidade de Franca, classifica o fenômeno como “escalada por arrasto”: a necessidade de interceptar drones e proteger cidadãos já insere a Europa na engrenagem militar.
Bárbara Neves, da Universidade Positivo, acrescenta que ataques a instalações usadas por britânicos ou americanos criam tensão estrutural. Quanto mais frequentes ou letais, maior a pressão por resposta coordenada, avalia.
Petraeus: participação europeia já é debatida
Em entrevista à Euronews, o ex-diretor da CIA David Petraeus afirmou que o engajamento militar europeu “é possibilidade real”, uma vez que o Irã não limita alvos a Israel ou bases americanas. Segundo ele, a discussão já ocorre nos bastidores.
Possíveis gatilhos para entrada da Europa
Analistas apontam dois cenários capazes de levar a Europa ao combate:
- ataque direto a território ou tropas de um país europeu;
- acionamento do Artigo 5 da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), caso um membro seja alvo de agressão atribuída ao Irã ou a seus aliados.
Conrado Baggio, da Universidade Cruzeiro do Sul, cita que investidas contra interesses britânicos no Golfo ou instalações francesas no Norte da África abririam espaço para contra-ataques. Aline Thomé, do Centro Universitário de Brasília, lembra que pressões domésticas e eventuais rupturas em rotas energéticas também podem balizar a decisão política.
Washington pode pressionar, mas custo é europeu
Especialistas ouvidos afirmam que um governo Donald Trump poderia incentivar o envolvimento europeu, mas não impor a participação. Segundo Galvão, líderes do continente calculam o custo econômico, energético e político de uma guerra regional ampliada. Para Baggio, a Casa Branca pode preferir não pressionar — o próprio Irã faria esse papel ao estender ataques a áreas de interesse europeu.
Reação dividida à ofensiva EUA-Israel
A operação lançada em 29 de fevereiro por Washington e Tel Aviv contra o Irã escancarou divergências internas na Europa:
- Alemanha e Itália apoiaram publicamente a ação, alegando ameaça nuclear iraniana;
- França e Reino Unido reforçaram presença militar, mas evitaram adesão formal;
- Espanha condenou o ataque, vetou o uso das bases de Morón e Rota por tropas americanas e recebeu retaliações comerciais.
No âmbito institucional, a UE pediu respeito ao direito internacional e esforços para conter a escalada. Em sentido oposto, o chanceler iraniano Abbas Araghchi advertiu que qualquer participação europeia será tratada como “ato de guerra” e receberá resposta imediata.
Com os ataques se multiplicando e interesses europeus cada vez mais expostos, observadores veem o continente numa encruzilhada: manter a neutralidade declarada ou assumir papel ativo na mais recente crise do Oriente Médio.
Com informações de Gazeta do Povo