A Maridt Participações, empresa que tem como sócios o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli e dois irmãos, obteve em 27 de fevereiro de 2026 uma liminar do ministro Gilmar Mendes que suspendeu a quebra de seus sigilos bancário, fiscal, telefônico e telemático aprovada pela CPI do Crime Organizado no Senado.
Petição em processo arquivado
Em vez de ingressar com nova ação — que seria distribuída por sorteio entre os 11 ministros — a defesa da Maridt protocolou às 0h58 de sexta-feira (27) uma petição em um mandado de segurança apresentado em 2021 pela produtora Brasil Paralelo contra a CPI da Pandemia. O caso estava arquivado desde 2023 e tinha como relator Gilmar Mendes.
O advogado Fernando Neves, ex-ministro do Tribunal Superior Eleitoral e representante da Maridt, anexou procuração assinada por José Eugênio Dias Toffoli, irmão do magistrado. Com a movimentação, o processo foi desarquivado e ficou sob relatoria de Gilmar.
Decisão rápida
No início da tarde do mesmo dia, o ministro concedeu a liminar. Para Gilmar, a CPI baseou o pedido de quebra de sigilo em “conjecturas” e “ilações abstratas”, o que permitiria acesso a conversas privadas, fotos e dados de localização sem justificativa específica.
Críticas à manobra
Juristas e integrantes do Ministério Público classificaram a estratégia como violação ao princípio do juiz natural. O procurador Hélio Telho afirmou nas redes sociais que o mandado de segurança da Brasil Paralelo serviu de “barriga de aluguel” para escolher o relator. O advogado André Marsiglia disse que a prática abriu precedente para que Gilmar passe a disputar futuras demandas envolvendo a Maridt.
Quebra de sigilo barrada
A CPI do Crime Organizado havia aprovado por unanimidade, também em 27 de fevereiro, o acesso a todas as movimentações financeiras da companhia entre 1.º de janeiro de 2022 e 8 de fevereiro de 2026, além de declarações à Receita, relatórios do Coaf, registros telefônicos e conteúdos de plataformas digitais.
O relator da comissão, senador Alessandro Vieira (MDB-SE), sustenta que a Maridt seria “estrutura de fachada” usada para ocultar pagamentos milionários a Toffoli por meio de contratos de consultoria com escritórios de advocacia. Após a liminar, Vieira prometeu recorrer “em todas as instâncias possíveis”.
Ligação com o caso Master
A investigação parlamentar foi motivada por mensagens apreendidas pela Polícia Federal no celular do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do liquidado Banco Master. Os diálogos indicariam cobrança de R$ 35 milhões ao longo dos anos e citações diretas a Toffoli.
A comissão também aprovou a convocação dos irmãos do ministro, mas eles obtiveram salvo-conduto do ministro André Mendonça para permanecer em silêncio ou não comparecer.
Posicionamento de Toffoli
Em nota divulgada em 12 de fevereiro, Dias Toffoli confirmou ser acionista da Maridt ao lado dos irmãos, afirmou que a participação está de acordo com a Lei Orgânica da Magistratura e disse ter vendido todas as cotas do resort Tayayá, no Paraná, até fevereiro de 2025. O ministro negou qualquer relação financeira ou de amizade com Daniel Vorcaro.
Com a liminar, dados já enviados à CPI deverão ser destruídos, e a comissão fica impedida de requisitar novas informações enquanto a decisão de Gilmar Mendes vigorar.
Com informações de Gazeta do Povo