Pressionado pelos Estados Unidos desde a captura de Nicolás Maduro em 3 de janeiro, o governo interino comandado por Delcy Rodríguez iniciou a liberação de parte dos presos políticos venezuelanos. O chavismo afirma ter solto mais de 400 pessoas, mas entidades de direitos humanos contestam os números e apontam falta de transparência.
A organização Justicia, Encuentro y Perdón (JEP) confirmou 257 libertações de forma independente. Já o Foro Penal sustenta que mais de 1 mil presos políticos permanecem detidos.
Choques elétricos, queimaduras e privação de sono
O colombiano David, mototaxista detido na fronteira entre Colômbia e Venezuela, passou 13 meses encarcerado. Ele contou ao canal chileno Meganoticias ter sido algemado, encapuzado e espancado antes de ser levado a Caracas. No Centro Penitenciário Rodeo I, relatou sessões de choques elétricos, queimaduras com água quente misturada a cal, spray de pimenta na cela e privação constante de sono. David disse ainda ter ingerido comprimidos sem saber a composição e permaneceu incomunicável o tempo todo.
Nos últimos dias, foi retirado da cela sem explicação, obrigado a vestir roupas civis e a assinar declaração de que não sofreu maus-tratos. “Comecei a chorar de alegria”, afirmou, lembrando que a família desconhecia seu paradeiro.
Italianos relatam isolamento absoluto
O empresário italiano Mario Burlò, 52 anos, preso no fim de 2024 sob acusação de terrorismo jamais formalizada, ficou quase um ano incomunicável. Ele descreveu ao jornal El País celas pequenas, infestadas de baratas e com luz precária, onde dormia no chão e recebia pouca comida por uma abertura na porta. O acesso ao pátio era limitado a uma hora diária, cinco vezes por semana, sem autorização para visitas. “Nós éramos tratados pior que cães”, afirmou.
Embora não tenha sofrido agressões físicas, Burlò qualificou o isolamento e a ausência de notícias dos filhos como tortura psicológica. À noite, guardas mascarados intimidavam os detentos; um deles usava o codinome “Hitler”.
Outro italiano, o voluntário humanitário Alberto Trentini, preso em novembro de 2024, divulgou comunicado por meio da advogada. Ele passou 423 dias na cadeia e disse que a libertação teve “preço muito alto”, mantendo a preocupação com quem continua preso.
“Sair do inferno” após 490 dias
O argentino-israelense Yaacob Eliahu Harary, 72 anos, deixou o Rodeo I após 490 dias. Segundo a família, ele foi submetido a humilhações, maus-tratos e uso de medicamentos psiquiátricos como sedativos. Harary relatou ter visto tentativas de suicídio, incluindo a de um companheiro de cela que tentou cortar o próprio pescoço. Ao sair, encontrou pessoalmente Diosdado Cabello, número 2 do chavismo, que acompanhou a liberação.
Regime minimiza denúncias
Cabello afirmou na televisão estatal que as solturas resultam de “revisão de casos” determinada por Maduro antes da captura e voltou a negar a existência de presos políticos. Já Delcy Rodríguez declarou que o país vive “novo momento político” e que o processo visa ao entendimento nacional.
Oposição e ONGs alertam que a estrutura repressiva permanece ativa, apontando a continuidade de detenções arbitrárias e relatos consistentes de tortura.
Com informações de Gazeta do Povo