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Pirâmide da Avestruz completa 20 anos: colapso que lesou 40 mil brasileiros ainda causa prejuízos

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Goiânia – Há exatos 20 anos, em 4 de novembro de 2005, o esquema da Avestruz Master ruiu, deixando cerca de 40 mil investidores sem acesso às próprias economias e marcando o maior crime financeiro da história de Goiás.

Como nasceu o negócio

Fundada em 1998 na capital goiana pelo empresário Jerson Maciel da Silva e pelos filhos Elisabete, Patrícia e Jerson Júnior, a empresa aproveitou o temor mundial gerado pela “vaca louca” para oferecer a criação de avestruzes como alternativa rentável.

O investimento era formalizado por meio de Certificados de Produto Rural (CPRs). Cada comprador se tornava dono de um casal de aves, hospedado nas fazendas do grupo, e recebia a promessa de recompra com valorização que chegava a 10% ao mês. A campanha “Projeto 33” dobraria o capital em 33 meses.

Expansão rápida e ostentação

Com forte publicidade — R$ 4 milhões em 2004, segundo a Polícia Federal — e a exibição de Ferraris, helicóptero e aparições na TV, a Avestruz Master tornou-se, em cinco anos, o maior criatório do continente, com pelo menos dez fazendas em Bela Vista de Goiás (GO) e mais de 45 mil investidores.

Sinais de alerta ignorados

Em 2003, o Procon-GO apontou emissão de títulos sem lastro depois de encontrar 4.371 aves onde a empresa dizia ter 5,8 mil. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) também barrou a venda de contratos com rentabilidade garantida, mas o negócio seguiu ativo.

Colapso em novembro de 2005

Os cheques começaram a voltar sem fundos em 4 de novembro de 2005. A sede, na Avenida T-10, amanheceu fechada e revoltou investidores, muitos dos quais retiraram avestruzes das fazendas por decisão judicial. Maciel e parte da família fugiram para o Paraguai; Jerson Júnior ficou para responder.

Seis dias depois, Maciel retornou e se entregou à polícia. O Ministério Público Federal sequestrou bens, incluindo duas Ferraris, uma BMW, armas e um helicóptero. A tentativa de recuperação judicial, aprovada em assembleia com cerca de 7 mil credores no Estádio Serra Dourada, fracassou, e a falência foi decretada em julho de 2006.

Dimensão da fraude

O grupo emitiu 172.298 CPRs, equivalentes a 600 mil aves, número superior ao total existente no país, estimado à época em 330 mil. Perícia da PF indicou plantel real de 38 mil aves e 17 mil ovos. A dívida ultrapassou R$ 1 bilhão; o leilão de bens arrecadou apenas R$ 18 milhões, menos de 2% do passivo.

Processo criminal e condenações

Maciel morreu de câncer no fígado em 2008, aos 68 anos. Em 2010, a Justiça Federal condenou Jerson Júnior a seis anos de prisão, Patrícia a cinco anos e Emerson Rodrigues (genro de Maciel) a cinco anos, além de multa e indenização coletiva de R$ 100 milhões. O TRF-1 manteve as penas em 2013, e o STJ reconheceu dano moral coletivo em 2016. Os três foram presos novamente em 2019.

Em abril de 2022, o Tribunal de Justiça de Goiás extinguiu a ação contra 18 réus por prescrição, encerrando a perspectiva de ressarcimento para a maioria dos credores.

Reflexos e reedições

O golpe inspirou esquemas semelhantes, como a paranaense Top Avestruz, criada em 2004 pelo ex-deputado Onaireves Moura, que também foi encerrada após intervenção da CVM, deixando 200 investidores lesados.

Hoje, o rebanho nacional é de apenas 13,8 mil avestruzes, segundo o Censo Agropecuário 2017. A história ganhou versão audiovisual na série de comédia “Pablo & Luisão”, lançada em 2023 na Globoplay, baseada na experiência de um dos investidores prejudicados.

Com informações de Gazeta do Povo