WASHINGTON – Seis meses depois da eleição de Leão 14, primeiro pontífice nascido nos Estados Unidos, líderes católicos conservadores que apoiam o ex-presidente Donald Trump dizem enfrentar um impasse com o Vaticano. O papa manteve e intensificou a agenda de Francisco em temas como migração, mudança climática e economia, classificando-os como “linhas vermelhas” morais.
Três pontos centrais de atrito
Migração. Leão 14 chamou as políticas de deportação norte-americanas de “desumanas”. Em reunião com bispos dos EUA, exibiu vídeos de migrantes detidos e pediu atuação mais incisiva da Igreja. Segundo o pontífice, o tratamento dispensado a estrangeiros serve como critério de julgamento cristão. Ele chegou a equiparar a defesa dos imigrantes à causa pró-vida, declaração que irritou grupos conservadores, para os quais a comparação ignora a distinção entre imigração legal e ilegal.
Mudança climática e economia. Na exortação apostólica Dilexi Te, iniciada por Francisco, o papa coloca proteção ambiental, acolhimento de migrantes e justiça econômica no mesmo patamar moral. O documento condena a “elite rica” e o “mercado livre desenfreado”. Defensores do livre mercado alegam que o texto desconsidera o papel do capitalismo na redução da pobreza.
Pena de morte. Ao afirmar que quem apoia a pena capital não pode se declarar pró-vida, Leão 14 retomou debate sobre a extensão da doutrina. O bispo emérito Joseph Strickland, do Texas, escreveu que “a Igreja que eu amo está sendo desmantelada”, criticando a possível revisão de ensinamentos tradicionais.
“Papa Woke” ou “papa comunista”
Rótulos como “papa Woke” e “papa comunista” ganharam força em veículos ligados à direita americana. John Yep, do grupo Catholics for Catholics, disse que Leão 14 “não entende o que está acontecendo na América”. Já Benjamin Harnwell, correspondente do podcast War Room, classificou o pontífice como “mais inteligente e sutil que Francisco, portanto mais perigoso” para conservadores.
Estilo formal, mesma direção
Nascido em Chicago, Leão 14 adotou postura litúrgica mais tradicional que seu antecessor: liberou novamente a Missa em latim, voltou a usar a mozzetta vermelha e retornou à residência oficial no Palácio Apostólico. Apesar dos gestos, mantém a sinodalidade e a ênfase nos marginalizados. Christopher White, da Universidade de Georgetown, observa que, assim como Francisco, o papa vê a Igreja como “hospital de campanha” para os pobres.
Progressistas, por sua vez, não aguardam mudanças em temas doutrinários como aborto, casamento e identidade de gênero; a diferença, apontam analistas, está na hierarquia de prioridades, não na substância dos ensinamentos.
Enquanto a base conservadora esperava maior atenção a questões culturais, o pontificado de Leão 14 reforçou debates sobre migração, clima e economia, ampliando a distância entre o Vaticano e católicos aliados de Trump.
Com informações de Gazeta do Povo