As eleições gerais de 2026 podem acelerar o enxugamento do sistema partidário brasileiro. Pelo menos nove legendas correm o risco de desaparecer, caso não cumpram a cláusula de barreira — dispositivo criado na minirreforma eleitoral de 2017 que condiciona o acesso ao fundo partidário e ao tempo de rádio e TV.
O que a lei exige em 2026
Para continuar recebendo recursos públicos e ter espaço na propaganda gratuita, cada partido precisa, neste ano, eleger mínimo de 13 deputados federais ou alcançar 2,5% dos votos válidos para a Câmara, distribuídos em pelo menos nove unidades da Federação. O percentual cresce a cada pleito até 2030.
Saídas possíveis
Diante da ameaça, as siglas podem:
- Federar-se: união formal de, no mínimo, quatro anos, em que os partidos passam a atuar como uma só legenda.
- Fundir-se: incorporação definitiva para somar bancadas e votos.
Segundo o cientista político Leandro Gabiatti, da Dominium Consultoria, a federação é a alternativa “menos drástica”, enquanto a fusão encerra a existência jurídica de pelo menos um dos envolvidos.
Partidos mais vulneráveis
Veja quais são as legendas que entram em 2026 sob maior pressão da cláusula de desempenho, suas orientações ideológicas e o tamanho atual das bancadas:
Novo – Direita (5 deputados federais, 1 senador)
Reestruturado após desempenho fraco em 2022, aposta em nomes como Deltan Dallagnol e Ricardo Salles. A direção projeta eleger cerca de 25 deputados e quatro senadores, o que afastaria o risco.
Solidariedade – Centro-esquerda (5 deputados, 0 senador)
Formou em 2025 uma federação com o Partido da Renovação Democrática (PRD). Sem figuras de grande apelo nacional, precisa crescer para atingir a meta conjunta.
PRD – Centro (5 deputados, 0 senador)
Resultado da fusão entre PTB e Patriota, soma dez deputados com o Solidariedade — número ainda inferior aos 13 exigidos.
PSDB – Centro-esquerda (14 deputados, 3 senadores)
Ex-protagonista da política nacional, tenta novo parceiro de federação após o fim da aliança com o Cidadania e o fracasso de tratativas com o Podemos.
Cidadania – Centro-esquerda (5 deputados, 0 senador)
Decidiu não renovar a federação com o PSDB. Busca união com o PSB para manter-se viável; sozinho, teria dificuldades de cumprir a cláusula.
Avante – Centro (8 deputados, 0 senador)
Chegou ao limite da regra em 2022 e não planeja federar. A principal figura, André Janones, enfrenta desgaste desde a admissão de rachadinha.
Podemos – Centro (16 deputados, 4 senadores)
Optou por disputar 2026 sem fusões. Se reeleger a bancada atual, supera a exigência, mas busca novos nomes para garantia extra.
PDT – Esquerda (16 deputados, 3 senadores)
Perdeu protagonismo e viu a saída dos irmãos Cid e Ciro Gomes. Negocia federação com o PSB para reforçar a posição.
Partido Missão – Direita (0 deputado, 0 senador)
Sigla criada por integrantes do MBL debuta em 2026. Rejeita federações e depende de candidatos como Kim Kataguiri, além de lideranças em São Paulo, para alcançar o mínimo.
Outras legendas
Partidos pequenos que já participam de federações consolidadas — casos de PCdoB, PV (ambos com o PT) e Rede Sustentabilidade (com o PSOL) — têm chances maiores de cumprir a regra. Já siglas como PSTU, DC, PCO e Agir continuam sem representação federal e enfrentam expectativa “irrisória” de atingir o patamar legal.
Desde a implantação da cláusula, sete partidos — PPL, PRP, PHS, Pros, PSC, Patriota e PTB — já foram extintos ou incorporados. O resultado das urnas em outubro dirá quem serão os próximos na lista.
Com informações de Gazeta do Povo