Brasília – 02/03/2026. O início da guerra deflagrada no sábado (28) entre Irã, Estados Unidos e Israel antecipou para o centro da pré-campanha de 2026 o choque de visões de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) sobre a política externa brasileira.
Logo após a ofensiva coordenada de Washington e Tel Aviv que resultou na morte do líder supremo Ali Khamenei e de chefes militares iranianos, o Palácio do Planalto divulgou nota condenando a ação sem aval do Conselho de Segurança da ONU e pedindo solução diplomática. Flávio Bolsonaro classificou a manifestação como “inaceitável” e reafirmou alinhamento ao “eixo ocidental” no combate ao terrorismo.
Valores em conflito
Para o cientista político Ismael Almeida, a posição do governo demonstra adesão ideológica a regimes autoritários, enquanto o campo conservador defende “postura objetiva” ao lado das democracias. Já Márcio Coimbra, presidente do Instituto Monitor da Democracia, vê em Lula a continuidade da tradição de não intervenção e, em Flávio, a prioridade à liberdade e à identidade ocidental.
Pré-campanhas em rotas diferentes
Desde o fim de 2025, o senador Flávio Bolsonaro intensificou viagens a Estados Unidos, Oriente Médio e Europa, buscando interlocução com lideranças da direita global. O roteiro incluiu Israel, onde se reuniu com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, Bahrein, Emirados Árabes, França e cidades norte-americanas como Nashville. Estão previstas passagens por Polônia, Hungria, Portugal e Bélgica.
Lula, por sua vez, reduziu o calendário internacional para focar em acordos comerciais. Recentemente visitou Índia e Coreia do Sul e tenta viabilizar o tratado Mercosul-União Europeia. O presidente aposta ainda em encontro com Donald Trump, previsto para março na Casa Branca, para destravar pautas sobre minerais raros, comércio e cooperação contra o crime organizado.
Impacto eleitoral
Analistas ouvidos pela reportagem apontam que a polarização internacional tende a se tornar ativo de campanha. Elton Gomes, da Universidade Federal do Piauí, avalia que Flávio busca restabelecer pontes construídas no governo Jair Bolsonaro e transformar a agenda externa em trunfo eleitoral. Ao mesmo tempo, Lula encara desgaste após ser declarado persona non grata por Israel ao comparar a ofensiva em Gaza ao Holocausto.
Com o Brasil figurando entre as dez maiores economias do planeta, governos estrangeiros e investidores acompanham a disputa. Daniel Silva, professor de Relações Internacionais da USP, lembra que o resultado das urnas influenciará o posicionamento da segunda maior democracia do continente em um cenário global cada vez mais fragmentado.
Com informações de Gazeta do Povo