Londres/Erbil, 2024 – Um dossiê de 28 páginas elaborado pelo Grupo Parlamentar Multipartidário para a Liberdade Internacional de Religião ou Crença (APPG FoRB) conclui que o Reino Unido e o Iraque precisam intensificar esforços para garantir segurança, condições de retorno e perspectivas econômicas a cristãos, yazidis e demais minorias religiosas que permanecem vulneráveis após a derrota militar do Estado Islâmico.
O documento, produzido em parceria com a organização Ajuda à Igreja que Sofre (ACN) do Reino Unido e a Faculdade de Direito da Brigham Young University (BYU), baseia-se em missão de apuração de fatos realizada em fevereiro na Região do Curdistão Iraquiano (RCI). A delegação manteve encontros com representantes governamentais, líderes religiosos e membros de comunidades minoritárias.
População minoritária encolhe
O relatório lembra que o Iraque tem cerca de 42 milhões de habitantes, dos quais 97% são muçulmanos. As minorias não muçulmanas – entre elas cristãos caldeus, siríacos e assírios, além de yazidis e sabeus-mandeanos – somam hoje apenas 3% da população, percentual que despencou nas últimas décadas por causa de conflitos, perseguições e migração em massa.
Na Lista Mundial da Perseguição 2026, elaborada pela Portas Abertas, o país ocupa a 18ª posição entre os lugares mais hostis a cristãos e outras confissões.
Elogios e alertas ao Curdistão
O estudo reconhece o histórico “relativamente sólido” do Governo Regional do Curdistão (GRC) em promover coexistência e acolher deslocados. O apoio a campos de refugiados, a doação de terrenos para igrejas, escolas e clínicas e a construção de infraestrutura social são citados como exemplos positivos.
Mesmo assim, problemas persistem. Entre eles, a não implementação integral do Acordo de Sinjar – essencial para a volta segura dos yazidis a suas terras –, a fraca responsabilização por crimes do Estado Islâmico, a crise econômica e o avanço da migração, sobretudo de jovens.
Pressão econômica estimula êxodo
Líderes cristãos, como o Patriarca Mar Awa III (Igreja Assíria do Oriente), o arcebispo Nicodemus Daoud Sharaf (Igreja Ortodoxa Siríaca) e o administrador apostólico de Al Qosh, bispo Felix, relataram que desemprego e dificuldades financeiras continuam a empurrar fiéis para fora do país.
No subúrbio cristão de Ankawa, em Erbil, a delegação visitou projetos de reconstrução considerados emblemáticos da resiliência local, entre eles a Escola Internacional Mar Qardakh, o Hospital Maryamana e a Universidade Católica de Erbil, fundados pelo arcebispo caldeu Bashar Warda.
Yazidis ainda sem retorno seguro
Durante passagem pela organização de direitos humanos Yazda, em Duhok, parlamentares britânicos ouviram relatos sobre 96 valas comuns já identificadas e sobre a situação de aproximadamente 350 mil yazidis que seguem deslocados. Mais de 2.500 permanecem desaparecidos, e a presença de milícias em Sinjar dificulta o retorno.
Recomendações centrais
No sumário executivo, a delegação destaca a “resiliência impressionante” das minorias, mas cobra apoio internacional reforçado. Entre as recomendações estão:
- que o Reino Unido intensifique a diplomacia para viabilizar o Acordo de Sinjar, fortaleça mecanismos de responsabilização por crimes do ISIS e mantenha diálogo permanente com líderes cristãos e yazidis;
- que Londres amplie ajuda a deslocados internos após a retirada da USAID e explore iniciativas comerciais que gerem empregos e reduzam a pressão migratória;
- que o governo federal iraquiano melhore a segurança de cristãos em Mosul e Bagdá, desarme milícias em Sinjar, exume valas comuns e reconheça formalmente o genocídio praticado contra minorias;
- que Bagdá resolva a disputa orçamentária com o Curdistão, medida vista como crucial para destravar investimentos e aliviar a sobrecarga nos campos de deslocados;
- que o GRC continue combatendo discurso de ódio, ofereça apoio financeiro e psicológico a populações traumatizadas e amplie oportunidades de trabalho para jovens.
Embora elogie a relativa estabilidade do Curdistão, o relatório conclui que pressões políticas, econômicas e de segurança não solucionadas seguem ameaçando o futuro das minorias religiosas no Iraque.
Com informações de Folha Gospel