Uma investigação publicada pelo The New York Times no início de julho aponta que o Japão transformou-se em um dos principais pontos de apoio para agentes de inteligência da Rússia desde que nações ocidentais expulsaram centenas deles após a invasão da Ucrânia, em fevereiro de 2022.
De acordo com o jornal norte-americano, espiões que deixaram Europa e Estados Unidos reapareceram em Tóquio, aproveitando brechas na legislação antiespionagem e controles de exportação considerados frouxos. Entre os casos citados está o de um veterano oficial do GRU, o serviço de inteligência militar russo, que atua sob identidade falsa no escritório da estatal Aeroflot na capital japonesa. Autoridades consultadas em três continentes disseram que ele exerce papel-chave no abastecimento do esforço de guerra de Moscou.
Componentes japoneses em 90% dos mísseis e drones russos
O levantamento revela ainda que cerca de 90% dos mísseis e drones usados pela Rússia contra a Ucrânia contêm peças fabricadas no Japão, segundo estimativas do governo ucraniano. A presença desses componentes ressalta a fragilidade dos mecanismos de fiscalização de produtos de uso dual e o acompanhamento insuficiente do destino final das mercadorias.
Legislação defasada e reação de aliados
Analistas ouvidos pelo NYT atribuem a situação a leis antiespionagem datadas e à restrição constitucional, pós-Segunda Guerra Mundial, a práticas de vigilância interna. “As capacidades de inteligência do país pararam no tempo”, afirmou Andrew Shearer, embaixador da Austrália no Japão, que vem oferecendo aconselhamento informal a Tóquio.
O coronel da reserva Paulo Roberto da Silva Gomes Filho, especialista em defesa, lembrou que o governo japonês já proibiu a exportação de diversos itens sensíveis e tenta ampliar a fiscalização, mas enfrenta triangulações por países intermediários e limitações históricas de contrainteligência. Segundo ele, o principal interesse russo não é política, mas tecnologia: semicondutores, sensores, óptica, telecomunicações e robótica produzidos por indústrias japonesas de ponta.
Governo admite necessidade de reforço
Após a publicação da reportagem, o porta-voz do governo, Minoru Kihara, reconheceu publicamente “a necessidade crescente de combater atividades de inteligência estrangeira” e citou a recente aprovação, no Parlamento, de uma lei que cria um organismo nacional para coordenar ações de inteligência hoje fragmentadas.
Movimentos de aproximação com Moscou geram incômodo
Relatório da Fundação Carnegie para a Paz Internacional apontou passos tímidos de reaproximação entre Tóquio e Moscou em 2026. Em maio, o deputado governista Muneo Suzuki visitou a capital russa, e o Festival da Cultura Russa foi inaugurado em Tóquio com a presença de Mikhail Shvydkoi, representante de Vladimir Putin, e de Akie Abe, viúva do ex-premiê Shinzo Abe.
Apesar desses gestos, o Japão mantém sanções contra a Rússia e a primeira-ministra Sanae Takaichi nega qualquer intenção de estreitar laços. Em 2022, ao se tornar alvo de represálias de Moscou por apoiar Kiev, ela declarou: “Para mim, tudo bem! Eu não iria lá, mesmo que me convidassem”.
Especialistas avaliam que o episódio expõe o risco de o território japonês e suas empresas serem vistos como parte da cadeia de suprimentos bélica russa, o que pode gerar pressão diplomática adicional dos Estados Unidos e de países europeus. A expectativa, porém, é de exigência por controles mais rígidos e eventuais sanções pontuais, não de medidas diretas contra o Estado japonês.
Com informações de Gazeta do Povo