26 de maio de 2026 — Kigali (Ruanda) — A burundinesa Marguerite Barankitse, 66 anos, transformou o trauma de um massacre em missão humanitária que, ao longo de três décadas, garantiu abrigo, educação e atendimento médico a dezenas de milhares de crianças órfãs.
Início em meio à guerra civil
Em 1993, Barankitse presenciou a execução de 72 amigos, familiares e colegas dentro de uma capela no Burundi, durante a onda de violência étnica que se seguiu a um golpe de Estado. Abalada, ela fugiu com 25 crianças — hutus e tutsis — para outra igreja. O pequeno grupo marcou o início do trabalho que posteriormente ganharia o nome Maison Shalom (Casa da Paz).
A organização nasceu para garantir moradia, alimentação, escola e cuidados de saúde, mas, segundo a fundadora, sempre teve objetivo maior: “ensinar a amar e a perdoar, atravessando as barreiras étnicas”. O nome foi escolhido pelas próprias crianças, que ouviram no rádio que “shalom” significa paz.
Resgates em zonas de combate
Nos anos seguintes, Barankitse percorreu áreas de conflito para retirar menores em situação extrema. Ela conta ter recuperado bebês entre corpos, como o caso de uma criança de quatro meses encontrada amarrada à mãe morta por granada. O menino sobreviveu e, já adulto, leva vida considerada bem-sucedida.
Outro episódio lembrado por ela ocorreu quando precisou embarcar, à força de insistência, em um avião com uma menina gravemente ferida no pescoço. Passageiros relutaram, mas a menina foi atendida, sobreviveu e hoje tem família formada.
Exílio e expansão em Ruanda
Ameaçada por novos surtos de violência, a ativista deixou o Burundi em 2015 e se instalou em Ruanda. Lá estruturou o Oásis da Paz, que já prestou assistência a mais de 70 mil refugiados burundianos. O centro oferece apoio psicológico a vítimas de tortura e estupro, cursos profissionalizantes, microcrédito e a recém-aberta École Sainte-Anne de Kigali, onde crianças de diferentes origens estudam juntas.
Reconhecimento internacional
Barankitse recebeu o Prêmio Aurora pelo Despertar da Humanidade, que destinou recursos para ampliar a rede de ajuda. Ela afirma sonhar com “Casas Shalom em todos os lugares, para que cada pessoa saiba que pertence”.
Mesmo após perdas e crises espirituais, a católica resume a motivação que move seu trabalho: “O ódio nunca terá a última palavra. Não enquanto praticarmos o amor”.
Com informações de Gazeta do Povo