Brasília, 23 de maio de 2026 – A euforia que quase levou o Ibovespa à marca histórica de 200 mil pontos no início de abril deu lugar a um movimento de saída de recursos. Somente em maio, investidores estrangeiros retiraram cerca de R$ 8 bilhões da Bolsa brasileira, revertendo parte do ingresso de capital observado no primeiro trimestre.
Do ápice ao recuo
Em 1.º de abril, o principal índice da B3 alcançou 199.354 pontos, a menos de 0,4% da barreira simbólica dos 200 mil. O impulso vinha de entradas líquidas de investidores de fora, que somaram R$ 26,3 bilhões em janeiro – um dos maiores volumes recentes.
Segundo analistas, o cenário mudou rapidamente. “Praticamente todos os pilares que sustentavam a alta perderam força ao mesmo tempo”, afirma Marco Brill, gestor de renda variável e multimercado da MAG Investimentos.
Fatores externos pesam
Entre os motivos apontados para a reversão estão:
- Reavaliação das expectativas de cortes de juros nos Estados Unidos;
- Escalada do conflito entre Israel e Irã, elevando o preço do petróleo de menos de US$ 60 para patamares acima de US$ 80;
- Temores de inflação global mais alta, com projeções subindo de menos de 4% para algo próximo de 5%;
- Retomada do apetite por ações de tecnologia e inteligência artificial em mercados como EUA e Coreia do Sul.
Com o petróleo pressionado e a inflação no radar, a estimativa de redução de juros passou de 3–4 pontos percentuais para algo entre 1 e 1,5 ponto, diminuindo o diferencial que favorecia ativos de risco em países emergentes.
Fluxo tático dominou a alta
Hugo Queiroz, sócio da L4 Capital, explica que boa parte do dinheiro que entrou no Brasil no começo do ano tinha perfil tático, buscando ganho rápido com diferenças de juros e câmbio. “Quando a simetria entre risco e retorno mudou, esse capital migrou para mercados considerados mais seguros ou com exposição maior a tecnologia”, observa.
A composição da alta do Ibovespa confirma a tese. Papéis de alta liquidez, como Vale e Petrobras, lideraram os ganhos, enquanto empresas menores, ligadas ao crescimento doméstico, ficaram para trás.
Efeito interno limitado
Turbulências políticas recentes, incluindo episódios envolvendo o senador Flávio Bolsonaro e o Banco Master, tiveram influência modesta, avalia Brill. “O fluxo de saída já vinha desde meados de abril”, afirma. Ainda assim, o mercado mantém atenção aos rumos fiscais do governo Lula e às articulações para a corrida presidencial de 2026.
Saldo ainda positivo no ano
Apesar da fuga mais recente, apenas cerca de 20% do montante que ingressou no início de 2026 deixou o país. Brill não descarta que o Ibovespa atinja 200 mil pontos futuramente, mas vê o desempenho cada vez mais atrelado a fatores externos, sobretudo à evolução da guerra no Oriente Médio, ao comportamento do petróleo e às decisões de política monetária nos Estados Unidos.
No curto prazo, o gestor mostra-se mais otimista com o real, favorecido pelo elevado diferencial de juros brasileiro, que mantém atrativas operações de carry trade mesmo em ambiente de maior volatilidade para ações.
Com informações de Gazeta do Povo