São Paulo – O reajuste de 54,8% no preço do querosene de aviação (QAV) anunciado pela Petrobras em 1º de abril, poucos dias após o início da guerra no Irã em 28 de fevereiro, pressiona fortemente o custo das passagens aéreas no Brasil.
De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as tarifas já acumulavam alta de 23,6% nos 12 meses até março, mais de seis vezes acima da inflação geral do período. Projeções da Warren Investimentos indicam que, ao longo de 2026, o valor dos bilhetes pode avançar até 36%.
Combustível pesa quase metade dos custos das companhias
O aumento no QAV ocorre em meio à escalada do petróleo tipo Brent, que saltou de US$ 70 para quase US$ 120 o barril em março. A tensão se concentra no Estreito de Ormuz, rota de 20% da produção global da commodity.
No Brasil, mesmo com 80% do QAV produzido internamente, a Petrobras adota a paridade internacional. Na Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, o litro passou de R$ 3,49 para R$ 5,40. Com isso, o combustível já representa 45% das despesas operacionais das companhias aéreas, segundo a Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear).
Mônica Araújo, economista-chefe da InvestSmart, ressalta que o encarecimento não é exclusivo do país: “O choque de oferta provocado pelo conflito no Oriente Médio eleva as commodities energéticas em todo o mundo”.
Impacto direto nas tarifas e no resultado das empresas
Para o grupo Abra, que reúne Gol e Avianca, cada aumento de US$ 1 por galão de combustível implica reajuste de 10% nas tarifas. Estudos citados pelo analista Rafael Minotto, da Ciano Investimentos, mostram que a mesma variação reduz de US$ 100 milhões a US$ 150 milhões o resultado operacional anual combinado de Gol e Azul.
Como medida paliativa, a Petrobras permitirá que distribuidoras quitem apenas 18% do reajuste em abril, parcelando o restante em até seis vezes a partir de julho de 2026.
Rotas menos rentáveis correm risco
A Abear alerta para “consequências severas” na malha aérea: companhias devem concentrar voos em rotas mais lucrativas e cancelar destinos com menor demanda. Minotto avalia que a estratégia deve atingir em especial o segmento de passagens populares.
Frete aéreo e cadeias produtivas também sentem
Jackson Campos, diretor de relações com investidores da AGL Cargo, afirma que o repasse no frete é imediato: “Quando o custo sobe, as empresas ajustam tarifas, reduzem capacidade e priorizam cargas de maior valor”. Setores que dependem de rapidez, como medicamentos, eletrônicos, autopeças e tecnologia, são os mais vulneráveis.
Turismo enfrenta tendência de alta
Lucas Dezordi, assessor econômico da Fecomércio-PR e professor da PUC-PR, lembra que a inflação do turismo alcançou 0,8% em fevereiro, puxada por avanço de 11,4% nas passagens aéreas. Com o novo reajuste do QAV, ele projeta alta de cerca de 10% por mês nas tarifas ao longo do próximo trimestre. Para Dezordi, o alívio só virá se o conflito for contido em até nove meses, permitindo que os custos retornem aos níveis de janeiro.
Com informações de Gazeta do Povo