São Paulo — Especialistas do mercado financeiro preveem que 2026 será dividido em dois momentos distintos para a economia brasileira. No primeiro semestre, a expectativa é de janelas de oportunidade abertas pela combinação de juros em queda e apetite por ativos de risco. A partir de julho, porém, a disputa eleitoral e o agravamento das contas públicas devem aumentar a volatilidade.
Primeiro semestre: cortes moderados na Selic e bolsa favorecida
O Banco Central, hoje com a Selic em 15%, deve iniciar um ciclo gradual de redução de juros até março, dependendo da trajetória da inflação. Projeções coletadas no Boletim Focus sugerem que a taxa termine 2026 entre 12,25% e 12,50%. Segundo o UBS, esse alívio monetário, somado à perspectiva de queda de juros nos Estados Unidos, cria um ambiente positivo para o Ibovespa, cujos lucros corporativos podem avançar 18% no ano.
O cenário externo também contribui: o Fundo Monetário Internacional calcula crescimento global próximo de 3%, sem recessão nos EUA. Investimentos maciços em inteligência artificial continuam a impulsionar a maior economia do mundo, enquanto um pacote de corte de impostos de US$ 240 bilhões anunciado pelo governo Trump deve sustentar consumo e atividade entre 2025 e 2026.
No câmbio, o real tende a ganhar força no primeiro semestre, favorecido pelo elevado diferencial de juros em relação aos títulos americanos.
Riscos domésticos: dívida e inflação de serviços
Apesar do ambiente externo benigno, a fragilidade fiscal limita a potência da política monetária. O endividamento público deve saltar de 79,6% do PIB em 2025 para 83,8% em 2026. Analistas alertam para o risco de “dominância fiscal”, quando a dívida elevada compromete a eficácia dos juros.
A inflação de serviços, estimada em 5,2% no próximo ano, permanece acima do patamar compatível com a meta de 3% e é reforçada por um mercado de trabalho aquecido: a taxa de desemprego estava em 5,4% em outubro de 2025, bem abaixo do nível considerado neutro (8%).
Medidas de expansão de gastos, como a isenção de Imposto de Renda até R$ 5 mil, reajustes no salário mínimo e a indexação de benefícios sociais, também pressionam o orçamento. Economistas calculam que as despesas obrigatórias crescem acima do limite de 2,5% fixado no arcabouço fiscal.
Crédito sob pressão e inadimplência recorde
O custo elevado do dinheiro já provoca efeitos no crédito. O comprometimento da renda das famílias com dívidas alcançou 28,5% em setembro de 2025, o maior desde 2005, enquanto pedidos de recuperação judicial seguem em alta. Consultorias estimam que o alívio só deverá ser sentido no fim de 2026, dada a defasagem de até nove meses entre cortes de juros e melhora efetiva na inadimplência.
Segundo semestre: eleições acentuam incertezas
A partir de julho, o foco se desloca para as urnas. O UBS classifica 2026 como “binário”: ou o vencedor apresentará um plano fiscal crível para 2027 ou o país poderá entrar em rota de dominância fiscal, cenário que elevaria o prêmio de risco, pressionando câmbio e juros longos.
O mercado acompanhará sinais de compromisso com reformas estruturais, como revisão das regras do salário mínimo e desvinculação de despesas obrigatórias. Caso prevaleça o gradualismo baseado em aumento de receitas, gestores preveem fuga de capital e maior volatilidade cambial.
Por ora, o Focus projeta crescimento de 2,3% para 2025 e 1,8% para 2026, refletem um ambiente de expansão modesta, juros ainda altos e contas públicas fragilizadas.
Com informações de Gazeta do Povo