O lançamento da série sul-africana “The Polygamist” na Netflix, que se tornou um sucesso instantâneo, reacendeu o debate sobre a poligamia entre cristãos na África. A trama de 22 episódios, em língua zulu, narra a vida de um empresário de Joanesburgo que vive com três esposas e uma amante, explorando as consequências de suas traições.
A série, lançada em junho, atraiu mais de 23 milhões de visualizações no primeiro mês e ficou entre os dez programas mais assistidos em 62 países, liderando a audiência em mais de 20 nações. Embora alguns cristãos africanos considerem a série uma forma de entretenimento com “discernimento saudável”, outros expressam preocupação de que ela normalize a poligamia. O influenciador cristão queniano Tevin Macharia Mukabana destacou que o conteúdo sexual da série pode despertar desejos que muitos cristãos tentam controlar.
Atualmente, cerca de 11% da população da África Subsaariana vive em lares poligâmicos, com esse número chegando a 40% na África Ocidental e Central. Embora a maioria dos poligâmicos sejam muçulmanos ou adeptos de religiões tradicionais, há também cristãos que defendem a prática, argumentando que ela faz parte da cultura indígena e não é condenada nas Escrituras.
No entanto, a maioria das igrejas africanas se opõe à poligamia. Pastores como Joshua Bolaji, da Welkom Baptist Church, compartilham experiências pessoais dolorosas de crescer em lares poligâmicos, ressaltando os conflitos que essa prática gera. Bolaji, que também é filho de um polígamo, lembra de momentos de tensão entre as esposas de seu pai, reforçando que a infidelidade é uma constante na poligamia.
A poligamia é reconhecida por leis consuetudinárias em alguns países africanos, como a Nigéria, onde representa quase 30% dos casamentos. Em algumas culturas, como entre os povos Zulu e Nguni, a poligamia é vista como um símbolo de status e riqueza. O ex-presidente sul-africano Jacob Zuma, famoso por suas múltiplas uniões, exemplifica essa prática.
Embora a Bíblia defenda a união entre um homem e uma mulher, alguns pastores, como Revival Hlongwane, evitam rotular a poligamia como pecado, considerando-a uma prática cultural. Hlongwane acredita que é importante abordar as desvantagens da poligamia, que frequentemente afetam mulheres e crianças de maneira negativa.
A ONU, em 1979, já havia pedido a proibição da poligamia devido a seus impactos prejudiciais. Recentemente, a Women’s Probono Initiative, de Uganda, questionou a constitucionalidade da prática, mas o tribunal a considerou uma expressão cultural e religiosa.
Histórias pessoais como a de Mariam Omar, que cresceu em uma família poligâmica e se sentiu abandonada, refletem o impacto emocional da poligamia. Ela se converteu ao cristianismo e hoje busca perdoar seus pais, apesar de reconhecer os problemas que a prática traz.
A discussão sobre a poligamia está longe de ser resolvida. Recentemente, o pastor nigeriano Joseph Apata atraiu críticas ao revelar sua união com três esposas, alegando que suas ações têm respaldo divino. Em contraste, Bolaji argumenta que a liderança cristã deve ser restrita a homens com uma só esposa, enfatizando a necessidade de pastores abordarem o tema de forma clara e direta, mesmo que culturalmente sensível.
Fonte: Christianity Today.