Madri – A entrada em massa de marroquinos em Ceuta levou o governo espanhol a intensificar as repatriações e provocou o restabelecimento de controles em fronteiras por parte de Itália e França. A crise, que se estende desde o início da semana, foi classificada pelo primeiro-ministro Pedro Sánchez como “violação da integridade territorial da Espanha”.
53 mil retornos voluntários
Fontes policiais informaram à Agência EFE que cerca de 53 mil dos migrantes que chegaram irregularmente à cidade autônoma voltaram espontaneamente ao Marrocos até as 20h de sexta-feira (31). O governo espanhol estimava 50 mil entradas, enquanto a administração local elevava o número para 60 mil.
A maioria dos recém-chegados é composta por jovens marroquinos de 18 a 35 anos. Muitos decidiram regressar após o acordo firmado entre Madri e Rabat para facilitar a repatriação e diante da falta de serviços comerciais em funcionamento na cidade.
Medidas espanholas
Em visita a Ceuta, Sánchez atribuiu a crise a redes de tráfico humano que, segundo ele, exploraram brecha aberta por recente decisão da Suprema Corte. O tribunal proibiu devoluções sumárias de migrantes interceptados no mar, salvo se existirem barreiras físicas que delimitem a fronteira marítima.
O premiê anunciou estudo para instalar boias no quebra-mar que separa Ceuta da vizinha Castillejos, além de possíveis mudanças legais para acelerar deportações. O diálogo com as autoridades marroquinas, destacou, “tem sido constante”.
Resposta humanitária
A Diocese de Cádiz e Ceuta destinou todas as coletas paroquiais do fim de semana ao atendimento dos migrantes por meio do Centro de Atendimento ao Migrante São Antonio. A Conferência Episcopal pediu que as ações governamentais respeitem a legislação e a dignidade humana.
Itália e França apertam vigilância
Em Roma, a primeira-ministra Giorgia Meloni anunciou controles temporários em portos e aeroportos para viajantes vindos da Espanha que não sejam cidadãos da União Europeia. A medida é justificada por “razões de segurança nacional” e, segundo o governo italiano, terá caráter excepcional. Meloni também ofereceu apoio a iniciativas da UE destinadas a reforçar as fronteiras externas do bloco.
Já a França ampliou o efetivo na divisa com a Espanha para 334 policiais e gendarmes a partir de sábado (1º). O ministro do Interior, Laurent Núñez, informou o uso adicional de drones, três aeronaves e patrulhas nos trens transfronteiriços. O presidente Emmanuel Macron manifestou solidariedade a Madri e defendeu participação da agência europeia Frontex, enquanto ordenava barreiras para impedir a passagem clandestina de migrantes.
Posição de Bruxelas
A Comissão Europeia lembrou que qualquer reintrodução de controles internos no espaço Schengen deve ser comunicada e justificada às instituições do bloco. Até o momento, o órgão confirmou não haver deslocamentos significativos de migrantes de Ceuta para o restante da Espanha e afirmou que a prioridade continua sendo o retorno ao Marrocos.
Impactos locais
O presidente da cidade autônoma, Juan Jesús Vivas, solicitou a declaração de emergência nacional para centralizar a resposta, pedido negado pelo Executivo. Nas ruas de Ceuta, congestionamentos, bloqueios viários, fechamento antecipado do comércio e superlotação dos centros de acolhimento foram registrados nos últimos dias.
A crise ocorre poucos meses após a aprovação, pelo governo espanhol, de reforma que prevê a regularização de cerca de 500 mil estrangeiros em situação irregular. Segundo Mohamed Benaissa, do Observatório Norte dos Direitos Humanos, publicações de jovens que conseguiram chegar à Espanha teriam estimulado novas tentativas de travessia.
Com informações de Gazeta do Povo