Representantes do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), do Ministério das Relações Exteriores (MRE) e da assessoria especial da Presidência da República se reuniram nesta terça-feira (14) com o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), em Washington. O encontro foi a última tentativa brasileira de impedir que Washington imponha uma tarifa adicional de 25% sobre produtos nacionais, medida que pode ser anunciada já nesta quarta-feira (15) no âmbito da investigação aberta com base na Seção 301 da legislação comercial norte-americana.
Segundo o MDIC, esta foi a quinta rodada de conversas entre as equipes desde 7 de maio, quando os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump criaram um grupo de trabalho para tratar do tema. Na reunião, o governo brasileiro voltou a classificar a recomendação do USTR como “injusta” e reforçou que nenhuma das motivações listadas na investigação justificaria o sobretaxamento proposto.
Principais pontos contestados pelos EUA
Concluído em junho, o relatório do USTR apontou que diversas práticas brasileiras seriam “irracionais” ou “discriminatórias” para empresas americanas. Entre os alvos estão:
- o Pix, porque o Banco Central atua como regulador e operador do sistema;
- tarifas preferenciais a produtos importados do México e da Índia;
- falhas no combate à corrupção e na proteção à propriedade intelectual;
- barreiras ao etanol produzido nos EUA;
- a aplicação considerada ineficaz da legislação contra desmatamento ilegal;
- decisões sigilosas da Justiça que afetam plataformas digitais.
Além da investigação específica sobre o Brasil, o USTR conduz um processo paralelo que examina o combate ao trabalho forçado em 59 economias. Nesse caso, está em análise a aplicação de uma tarifa de 12,5% para países que, segundo Washington, não demonstram eficácia nesse controle.
Discurso afiado de Lula
Enquanto técnicos negociavam em Washington, Lula manteve tom de confronto com Trump em eventos no Brasil. Em reunião com líderes do setor automotivo nesta terça (14), o presidente ironizou a qualidade das próteses dentárias do norte-americano ao defender o programa Brasil Sorridente: “Nem a dentadura dele tem a qualidade das nossas feitas pelo SUS”, afirmou.
Na segunda-feira (13), em agenda oficial em São Paulo, Lula acusou Trump de “pirataria” pela decisão de assumir o controle do Estreito de Hormuz e cobrar taxa de 20% de navios que atravessarem a região. Nas últimas semanas, o petista também:
- chamou o republicano de “imperador” nas relações internacionais;
- considerou “desaforada” a proposta de sobretaxar exportações brasileiras durante tratativas em curso;
- afirmou que, diante do superávit comercial americano com o Brasil, “quem deveria aumentar a taxa seríamos nós, não eles”.
Lula ainda acusou a família Bolsonaro de “entreguismo” por manter contato com autoridades dos EUA enquanto a investigação comercial avançava e declarou que “o Brasil não está à venda”.
O governo brasileiro aguarda agora a decisão do USTR, prevista para esta quarta (15). Caso o tarifaço seja confirmado, a sobretaxa poderá incidir sobre uma lista ampla de produtos, elevando tensões na relação bilateral.
Com informações de Gazeta do Povo