Nos últimos meses, uma série de informações falsas envolvendo Nossa Senhora Aparecida tem circulado, especialmente no contexto eleitoral. Uma das narrativas afirma que o senador Flávio Bolsonaro (PL) planejava retirar o título de Padroeira do Brasil da santa. Essa história remonta a um projeto de 2007, apresentado pelo então deputado Victorio Galli (PMDB-MT), que sugeria a alteração do título para “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. O projeto foi arquivado um ano depois, sem qualquer relação com Flávio Bolsonaro.
A mentira ganhou força e provocou reações significativas. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a primeira-dama Janja compartilharam imagens de Lula segurando uma imagem de Nossa Senhora Aparecida. Durante um comício em São Miguel, na zona leste de São Paulo, a equipe de Lula tocou a música “Nossa Senhora”, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos. Em uma entrevista no programa Canal Livre, da TV Bandeirantes, Lula afirmou que “mexer com Nossa Senhora Aparecida não é aceitável”, embora tenha se eximido de responsabilização ao afirmar: “Não sei se foi fake news”.
Contrariando as expectativas, a narrativa enganosa não afetou a popularidade de Flávio Bolsonaro entre os católicos. De acordo com o Agregador de Pesquisas Eleitorais por Religião da Universidade Estadual de Campinas, suas intenções de voto nesse segmento aumentaram para 37% após o episódio.
O simbolismo de Nossa Senhora Aparecida é inegável no Brasil, com aproximadamente 100 milhões de católicos no país, segundo o último censo. O comentarista político Bernardo Küster destaca que Aparecida representa “o coração do catolicismo brasileiro”, o que torna a figura da santa relevante nas disputas eleitorais. O PT, por sua vez, tem uma história de conexão com o catolicismo, afirmando ter raízes nas Comunidades Eclesiais de Base e na Teologia da Libertação.
Esse vínculo se reflete na utilização da imagem de Aparecida em campanhas desde 1994, quando Lula participou de uma romaria com 30 mil pessoas no Santuário. Ao longo dos anos, o PT tem empregado a figura da santa para transmitir mensagens políticas, especialmente em momentos de crise. O uso de símbolos religiosos nas campanhas é uma estratégia conhecida, onde orientações sobre valores são apresentadas sem um pedido explícito de votos.
As eleições de 2010 e 2018 também mostraram candidatos utilizando a imagem de Nossa Senhora para fortalecer suas campanhas. Dilma Rousseff, por exemplo, enfrentou críticas por ser acusada de transformar o Santuário em palanque eleitoral. Em 2018, mesmo com Lula preso, o PT organizou uma romaria em Aparecida pela liberdade do ex-presidente, desafiando a posição do Santuário que se opôs à politicagem em seu espaço.
Recentemente, a falsa narrativa sobre Nossa Senhora Aparecida ressurgiu, com montagens e informações enganosas circulando nas redes sociais. Durante a campanha de 2022, Lula e Haddad afirmaram que não iriam a Aparecida para evitar que a celebração se tornasse um palanque, mas acabaram utilizando a imagem da santa em suas comunicações.
Essas situações revelam um padrão de mobilização eleitoral que se aproveita da religiosidade dos brasileiros, levantando questões sobre a autenticidade das manifestações religiosas em contextos políticos. O que permanece claro é que, independentemente da verdade por trás das narrativas, a figura de Nossa Senhora Aparecida continua a ser um símbolo poderoso na política brasileira.
Fonte: Revista Oeste.










