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O papel de Janja na campanha de reeleição de Lula: apoio ou entrave?

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A presença marcante da primeira-dama Rosângela “Janja” da Silva tem sido notável desde que Luiz Inácio Lula da Silva (PT) assumiu a presidência em janeiro de 2023. Formada em sociologia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), Janja, aos 59 anos, demonstrou desde o início que estaria ativamente envolvida na gestão do presidente e isso se reflete na atual campanha à sua reeleição.

Ela não escapou de controvérsias ao longo do terceiro mandato de Lula, abrangendo desde declarações polêmicas a situações que geraram constrangimentos diplomáticos, como as manifestações relacionadas à China e ao empresário Elon Musk. Além disso, seus gastos pessoais com recursos públicos, especialmente em viagens internacionais, foram alvo de críticas e chegaram a ser questionados formalmente no Tribunal de Contas da União (TCU).

Essa intensa exposição atraiu tanto apoiadores quanto severas críticas de opositores e, em algumas situações, até de aliados. Janja foi acusada de restringir o acesso ao presidente, dificultando a interação de outras figuras do partido com Lula.

Com a formalização da candidatura de Lula à reeleição, a equipe de marketing tem monitorado e limitado a participação de Janja, buscando evitar desgastes, especialmente entre eleitores independentes. Uma pesquisa do Datafolha, realizada em junho de 2025, revelou que 36% da população acreditavam que a atuação da primeira-dama prejudicava o governo, enquanto apenas 14% consideravam que ela ajudava. Entre os entrevistados com ensino superior, essa avaliação negativa atingia 49%.

Após um treinamento, o discurso de Janja durante o lançamento da campanha de reeleição em São Bernardo do Campo mostrou uma postura mais centrada e cuidadosa. Entretanto, segundo relatos, seu modo de agir nos bastidores não mudou. Janja continua a centralizar decisões sobre a agenda do presidente, prioridades e pautas, participando da elaboração de discursos e estratégias voltadas a públicos considerados relevantes.

Uma fonte próxima à campanha petista revelou que Janja desempenha um papel “fundamental” e estaria quase coordenando informalmente a campanha presidencial. Essa mesma fonte afirmou que foi ela quem incentivou Lula a se candidatar, quando ele estava indeciso sobre seu futuro político.

Janja lidera o que é chamado de “núcleo duro” do PT, composto por figuras como Fernando Haddad, Guilherme Boulos, Jorge Messias, Gleisi Hoffmann e Rui Costa, com quem ela mantém boas relações. Embora tenha havido uma disputa com Gleisi, a ex-presidente do PT acabou recuando um pouco. Por outro lado, Janja é vista como responsável por afastar algumas figuras históricas entre os aliados de Lula nos últimos anos.

A primeira-dama também expressa desconforto com o desgaste gerado pelo caso envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, que é alvo de investigações no Supremo Tribunal Federal por suspeitas de tráfico de influência e favorecimento a empresas. Lulinha nega as acusações.

Recentemente, a divulgação de mensagens e relatórios da Polícia Federal sobre a atuação de Lulinha e sua relação com a empresária Roberta Luchsinger intensificou o caso, aumentando a pressão sobre a campanha de Lula. A defesa de Lulinha alegou que houve “vazamento criminoso” e que não há provas que o incriminem.

Com relatos de que Janja tem alertado Lula sobre os riscos do caso há meses, a tensão entre eles se intensificou. A situação familiar é comparada a desentendimentos entre Michelle Bolsonaro e os filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Foi a primeira-dama quem sugeriu a mudança de Lulinha para a Espanha em julho de 2025. Mensagens de Lulinha que foram divulgadas recentemente mostram a hostilidade existente. Em uma conversa de 29 de junho de 2025 com Roberta Luchsinger, ela mencionou que Kalil Bittar, um sócio de Lulinha, estaria usando sua proximidade com o presidente para fechar negócios com a Telebras. Durante essa conversa, Roberta também revelou que Kalil criou um perfil falso para atacar Janja.

A campanha acredita que o escândalo, até o momento, causou um desgaste menor do que o esperado, mas permanece atenta. A pesquisa mais recente da BTG/Nexus, divulgada em 24 de agosto de 2026, mostrou Lula à frente no primeiro turno com 41%, contra 37% de Flávio. No segundo turno, a vantagem de Lula caiu de três para um ponto, com Lula passando de 47% para 46% e Flávio avançando de 44% para 45%, ambos tecnicamente empatados dentro da margem de erro.

A atuação de Janja gera opiniões divergentes entre cientistas sociais e analistas. Leandro Baiatti, analista político, acredita que “todo parceiro de um presidente da República deve ter uma postura moderada”, e por isso, Janja tem se mostrado “um pouco mais contida e discreta”.

A cientista política Luciana Santana ressalta que as primeiras-damas geralmente têm um papel simbólico. No entanto, ela observa que quando ações fogem desse padrão, como no caso das declarações sobre Elon Musk ou as taxas de blusinhas, a situação se torna mais complicada.

Por outro lado, Antonio Flávio Testa é mais crítico, afirmando que a atuação de Janja prejudica a institucionalidade da primeira-dama e que sua postura pode gerar antipatia no público.

Luciana Santana, por sua vez, minimiza o impacto das declarações da primeira-dama na eleição, enquanto Paulo Ramirez, cientista político, acredita que a rejeição a Janja afeta pouco o eleitorado, mas pode ser utilizada para atrair eleitores moderados, especialmente mulheres.

Roberto Reis, estrategista eleitoral, vê um efeito mais complexo, afirmando que, apesar da rejeição, Janja desempenha um papel importante de mobilização política, unindo a esquerda, sendo uma referência para influenciadores digitais.