A Passagem Panoramas, inaugurada em 1799 no centro de Paris, tornou-se palco de um duelo silencioso entre o apetite turístico por restaurantes e a persistência de algumas das mais tradicionais casas de filatelia da capital francesa. Hoje, bistrôs e trattorias dividem espaço com apenas um punhado de lojas especializadas na compra e venda de selos, que veem o negócio encolher à medida que o envio de cartas no país caiu pela metade em dez anos.
Entre as vitrines repletas de menus bilíngues e promoções de “matcha latte”, cartazes anunciam lotes de “70 selos” para um público cada vez mais raro. O colecionador Gilles Drapanski circula pelos corredores com o catálogo debaixo do braço, desviando-se das mesas lotadas de turistas: “Consigo comprar hoje o que não podia quando jovem. Pelos selos viajo na história, na geografia, sem pegar avião”, afirma.
Filatelia Marigny resiste desde 1990
Catherine, proprietária da Filatelia Marigny, mantém portas abertas na galeria há 34 anos. Para ela, cada selo é “uma forma lúdica de aprender história”. Mesmo assim, reconhece que o ambiente mudou: “Antes, os lojistas moravam no andar de cima; era como uma vila. Agora, a maioria dos espaços vira restaurante. Quando nos aposentarmos, este lugar provavelmente seguirá o mesmo caminho”.
A comerciante aponta ainda para a falta de renovação de público: “Tenho um cliente de 54 anos que é chamado de ‘o garoto’ no clube filatélico”, diz, reforçando a dificuldade em atrair jovens colecionadores.
Números que sustentam a paixão
Apesar do cenário desafiador, a filatelia mantém força global com cerca de cem federações. Na França, são quase 20 mil associados distribuídos por 450 clubes, além de leilões que movimentam altas cifras. O primeiro selo francês, o «franco vermelho» de 1849 com a imagem da deusa Ceres, pode ultrapassar 20 mil euros, e um bloco de quatro exemplares já alcançou quase 1 milhão de euros. Fora da França, o recorde permanece com o raríssimo exemplar das ilhas Maurício, impresso em 1847, arrematado por 8 milhões de euros em 2022.
Enquanto turistas degustam pratos argentinos, japoneses ou italianos sob a claraboia neoclássica da Passagem Panoramas, Catherine e colegas tentam manter acesa a chama de um hobby que, para eles, continua sendo “uma cultura fácil e divertida para todos”.
Com informações de Gazeta do Povo