Bruxelas – A decodificação de celulares criptografados da plataforma EncroChat levou autoridades europeias a identificar uma sociedade criminosa de € 99 milhões entre o ex-major da Polícia Militar do Paraná Sergio Roberto de Carvalho e o belga Flor Bressers, apelidado de “Corta Dedos”. As mensagens obtidas mostram que, entre junho de 2019 e abril de 2020, os dois traficantes movimentaram pelo menos 16 toneladas de cocaína enviadas do Brasil para a Europa.
Contêineres de manganês escondiam a droga
A investigação começou em 5 de abril de 2020, quando a polícia holandesa apreendeu 3,2 toneladas de cocaína no porto de Roterdã. A carga, vinda do Brasil no navio Marseille, estava distribuída em 14 contêineres de minério de manganês, cinco deles recheados de droga. O material seria entregue a uma empresa de dessalinização de água na Bélgica e a outra firma na República Tcheca.
Os belgas descobriram que a importadora belga Kriva-Rochem – registrada em nome de um laranja de mais de 80 anos – já trazia grandes remessas disfarçadas desde 2019. Durante buscas em endereços ligados ao grupo, foram recolhidos vários telefones modificados, cujos números de IMEI acabaram conectando a operação ao EncroChat.
EncroChat: rede com 60 mil usuários sob vigilância
A EncroChat vendia aparelhos Samsung, BlackBerry e Aquaris X2 com sistema Android alterado. Os dispositivos custavam € 1 000, mais assinatura semestral de € 1 500, e ofereciam criptografia PGP, botão de autodestruição e funções para desativar câmera e microfone.
Em junho de 2020, a Gendarmerie Nacional da França invadiu secretamente servidores da empresa alojados em Lille. A ação, considerada a maior da Europol, resultou em 6 500 prisões, apreensão de 103,5 toneladas de cocaína, 163,4 toneladas de maconha, 3,3 toneladas de heroína e € 900 milhões em bens.
Apelidos que entregam a parceria
Nos arquivos descriptografados, os investigadores identificaram os codinomes “Ricklong” e “Bongoking” – ambos pertencentes a Bressers – e “Lucrativeherb”, usado por Carvalho. As conversas revelam uma joint venture na qual Bressers pagava apenas metade do valor da cocaína – US$ 7 500 por quilo – ao fornecedor brasileiro. No mercado europeu, o mesmo quilo alcançava preço entre US$ 50 000 e US$ 80 000.
Documentos anexados ao processo em Bruges indicam que Bressers desembolsou € 99 milhões em dinheiro vivo ao longo de dez meses, montante correspondente a oito carregamentos bem-sucedidos (12,8 toneladas) mais a remessa interceptada na Holanda.
Estrutura financeira internacional
Segundo o juiz belga Johan Desseyn, o envio da droga partia de portos brasileiros, organizado por um contato de confiança de Carvalho identificado como “Littlejacket”. O dinheiro passava por um operador nos Emirados Árabes Unidos, apelidado de “Vipertaylor”, e por uma fintech de criptomoedas em Londres. O italiano Caio Marchesani (“GreySmith” no aplicativo), dono da Trans-Fast Remittance, foi preso no Reino Unido em 2023 por seu papel no esquema de lavagem.
Prisão e julgamento dos envolvidos
Bressers foi detido em fevereiro de 2022 na Suíça e extraditado para a Bélgica. A esposa dele recebeu pena de dois anos por lavagem de dinheiro. Carvalho, apelidado pela Interpol de “Pablo Escobar brasileiro”, foi capturado também em 2022 depois de anos foragido; ele falsificara a morte em 2020 para driblar processos na Espanha. O julgamento do ex-major na Justiça belga está marcado para ser retomado em 7 de setembro de 2026.
Impacto nas investigações brasileiras
A Polícia Federal, que já apurava a chamada Operação Enterprise, recebeu da Bélgica uma lista de cinco suspeitos adicionais no Brasil e quatro empresas ligadas às exportações de manganês. As 16 toneladas ligadas ao caso europeu somam-se a outras 50 toneladas de cocaína rastreadas pela PF entre 2017 e o fim de 2020, aumentando o alcance atribuído à organização de Carvalho.
Advogados do ex-major no Brasil não foram localizados. Na Bélgica, a defesa sustenta a inocência do acusado.
Com informações de Gazeta do Povo