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Serviços de inteligência compram dados de anúncios para vigiar cidadãos, aponta levantamento

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Agências de espionagem de diversos países estão adquirindo, em grande escala, informações coletadas por plataformas de publicidade digital para monitorar a população. O material inclui histórico de localização de celulares, hábitos de navegação e perfis comportamentais, dispensando ordem judicial para acesso, segundo pesquisa divulgada em junho pelo think tank europeu Interface.

Como a informação chega aos órgãos de Estado

O fluxo começa quando o usuário abre um aplicativo ou site com anúncios. Antes de o comercial aparecer, o sistema de leilão em tempo real recolhe localização, tipo de aparelho, endereço IP e interesses. Os dados seguem para anunciantes que disputam o espaço, mas todos os participantes podem recebê-los mesmo sem vencer o lance.

Corretoras de dados capturam esse conteúdo, montam gigantescos bancos de registros e os vendem a uma indústria batizada de Adint (sigla em inglês para “inteligência publicitária”), que os converte em ferramentas de vigilância.

Mercado bilionário e empresas envolvidas

Reportagem do jornal francês Le Monde identificou pelo menos 15 companhias que oferecem o serviço, muitas delas criadas por ex-integrantes das forças de segurança de Israel. Entre os exemplos citados:

  • Penlink (EUA) – diz coletar dados de todos os países desde 2019, atualizados de dois em dois minutos a 24 horas;
  • RCS (Itália) – ferramenta Ubiqo promete rastrear aparelhos com histórico de até dez anos;
  • Wave Guard Technologies (Israel) – plataforma AdVantage anuncia: “qualquer dispositivo, a qualquer hora, em qualquer lugar”.

Em 2023, o Serviço de Imigração e Controle de Aduanas dos Estados Unidos (ICE) pagou US$ 5 milhões por um software de Adint e firmou contrato adicional com a Penlink para utilizar o programa Webloc.

Do “anonimato” à identificação nominal

Os registros chegam às empresas atrelados a um identificador publicitário – código gerado por Apple ou Google. Fornecedores, porém, oferecem cruzamento com cadastros vazados e bases comerciais, revertendo a anonimização. Representantes da RCS afirmaram ter ligado 95% dos dispositivos móveis italianos a pessoas físicas; a empresa negou a informação após questionamento.

Com a correlação de dados, torna-se possível saber onde alguém mora, trabalha, quais trajetos realiza e se esteve em locais sensíveis, como templos, clínicas ou manifestações políticas.

Europa amplia uso; regulação é escassa

O estudo coordenado por pesquisadores alemães, que consultou 11 órgãos de supervisão de inteligência, concluiu que a Adint já é uma das principais fontes de dados de segurança no continente. Grandes agências compram pacotes de fornecedores privados – em alguns casos, via empresas de fachada – contendo idade, sexo, preferências políticas, orientação sexual e crenças religiosas. Na França, a DGSE pediu ao Parlamento, em 2021, uma lei específica para regular a prática, mas o tema continua sem consenso.

Posição de autoridades americanas

Em março, o diretor do FBI, Kash Patel, afirmou ao Senado que a agência adquire “informações comercialmente disponíveis”, sem negar a compra de localização de cidadãos. A declaração diverge da posição de 2023, quando o então diretor Christopher Wray disse ter reduzido o uso desse tipo de dado.

No Congresso dos EUA, parlamentares tentaram proibir a compra de informações que exigiriam mandado judicial, vinculando a medida à renovação da Seção 702 da Lei de Vigilância de Inteligência Estrangeira (FISA). A proposta foi barrada após resistência da Casa Branca e da liderança republicana.

Inteligência artificial turbina a vigilância

Soluções de IA permitem cruzar milhões de registros em segundos, identificar padrões de comportamento e prever deslocamentos. O cofundador da Anthropic, Dario Amodei, alertou que esses sistemas podem criar um retrato detalhado da vida de qualquer pessoa em larga escala, motivo pelo qual a empresa recusou liberar sua tecnologia para vigilância doméstica em massa.

Brecha legal persiste

Ao recorrer a dados de empresas privadas, governos contornam decisões como a da Suprema Corte dos EUA no caso Carpenter v. United States (2018), que condicionou o acesso ao histórico de localização das torres de telefonia a mandado judicial. Especialistas em privacidade afirmam que, dessa forma, direitos constitucionais acabam “à venda” no mercado de dados.

Com informações de Gazeta do Povo