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Futebol feminino vira vitrine de propaganda do regime norte-coreano

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Pyongyang, 15 de junho de 2026 – O governo da Coreia do Norte transformou o futebol feminino em um dos principais instrumentos de exibição de força e unidade nacional no exterior. Vitórias recentes de clubes e seleções de base são usadas pela liderança de Kim Jong-un para reforçar a narrativa de superioridade do regime socialista.

Recepção digna de generais

Um vídeo que circulou nas redes sociais nas últimas semanas mostra atletas do Naegohyang Women’s FC e jogadoras da seleção sub-17 chorando ao serem cumprimentadas, uma a uma, por Kim Jong-un após um amistoso em Pyongyang. Segundo a agência estatal KCNA, o líder saudou as atletas como “filhas orgulhosas da pátria” e elogiou sua “lealdade ao partido”.

Títulos que viram vitrine

Em maio, o Naegohyang conquistou pela primeira vez a Liga dos Campeões Feminina da Ásia, vencendo o Tokyo Verdy Beleza por 1 a 0 em Suwon, Coreia do Sul. A capitã Kim Kyong Yong, 24, marcou o gol decisivo e foi eleita a melhor jogadora do torneio. O clube também se tornou o primeiro time norte-coreano a atuar no território sul-coreano em oito anos, período marcado por tensões políticas entre os dois países.

Na mesma época, a seleção sub-17 goleou o Japão por 5 a 1 e faturou a Copa da Ásia da categoria. Meses antes, em novembro de 2025, o time havia garantido o bicampeonato mundial sub-17 ao derrotar a Holanda por 3 a 0 no Marrocos. A Coreia do Norte soma agora 14 títulos em torneios femininos de base, incluindo o Mundial sub-20 de 2024.

Investimento estatal desde os anos 1980

O interesse oficial pelo futebol feminino começou no fim dos anos 1980, após o anúncio da primeira Copa do Mundo da modalidade. Kim Jong-il, então líder do país, integrou o esporte aos currículos escolares e criou equipes ligadas às Forças Armadas. Em 2013, já sob Kim Jong-un, foi inaugurada a Escola Internacional de Futebol de Pyongyang, que treina meninas e meninos dos 7 aos 17 anos.

Técnicos estrangeiros que visitaram o país relatam métodos de treinamento extremos. O britânico Stephen Constantine disse à CNN ter visto jovens correndo com colegas nas costas, enquanto o ex-comandante da seleção sul-coreana Colin Bell descreveu “treino, treino e mais treino” desde a infância.

Propaganda e recompensas

Para o professor Jung Woo Lee, da Universidade de Edimburgo, Pyongyang associa os triunfos esportivos à disciplina ideológica, reforçando a imagem de Kim Jong-un internamente e projetando poder externo. Atletas bem-sucedidas podem receber apartamentos na capital, porções extras de alimento e filiação ao Partido dos Trabalhadores. O prêmio mais simbólico, porém, é o encontro com o líder.

Crise, punição e retorno

O futebol feminino norte-coreano enfrentou baixa após a Copa do Mundo de 2011, quando cinco jogadoras foram pegas no antidoping. A justificativa — uso de “medicamento natural” após serem atingidas por um raio — não convenceu a FIFA, que puniu o país por quatro anos. A seleção ficou fora do Mundial de 2015, não se classificou para 2019 e alegou restrições da pandemia para não competir em 2022 e 2023.

A retomada começou na Copa da Ásia de 2026, na Austrália, onde o time chegou às quartas de final. A equipe principal já garantiu vaga na Copa do Mundo Feminina de 2027, no Brasil, marcando seu retorno ao torneio após 16 anos.

Com informações de Gazeta do Povo