Brasília — 31/05/2026. A estratégia que garantiu ao Partido dos Trabalhadores (PT) cinco vitórias em seis eleições presidenciais desde 2002 começa a dar sinais de esgotamento. Pesquisa BTG/Nexus realizada entre 22 e 24 de maio aponta o presidente Luiz Inácio Lula da Silva com 47% das intenções de voto em eventual segundo turno contra 43% do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), diferença dentro da margem de erro de 2 pontos percentuais. O levantamento ainda registra rejeição de 47% ao petista.
Modelo baseado em benefícios perde fôlego
Desde o primeiro mandato de Lula, a fórmula eleitoral do PT combina expansão de programas sociais, oferta de crédito subsidiado, desonerações e valorização real do salário mínimo. Medidas como Bolsa Família e Minha Casa Minha Vida sustentaram 20 anos de poder em 24. Agora, analistas afirmam que o retorno político dessa engrenagem já não é o mesmo.
O cientista político Leonardo Barreto, da Think Policy, classifica a estratégia como “perspectiva pecuniária da democracia”, na qual subsídios e transferências de renda criam clientelas eleitorais. Para ele, o modelo “perdeu capacidade de oferecer perspectiva de futuro”.
Novo pacote soma R$ 140 bilhões
Em resposta à queda de popularidade, o governo lançou um conjunto de medidas estimado em R$ 140 bilhões até a eleição de 2026. Entre elas estão:
- Desenrola 2.0 e facilidades para crédito consignado;
- Move Aplicativos, linha de até R$ 30 bilhões para taxistas e motoristas de aplicativo comprarem veículos a juros menores;
- Extinção da “taxa das blusinhas”, com impacto de R$ 1,2 bilhão até outubro;
- Subvenção ao preço da gasolina, custo projetado de R$ 1,22 bilhão por mês;
- PACOTE de contenção dos combustíveis, com despesa bruta estimada em R$ 35,14 bilhões.
“É como insistir em um antibiótico ao qual a doença ficou resistente. Em vez de trocar o remédio, o governo aumenta a dose”, compara Barreto.
Risco de repetir 2014
O economista Samuel Pessoa, do FGV Ibre, vê paralelos com o fim do governo Dilma Rousseff, quando subsídios, expansão fiscal e represamento de preços antecederam a recessão de 2015-2016, que retraiu o PIB em quase 7%. Ele destaca o avanço da dívida pública de 71,2% do PIB em 2022 para 79,2% hoje e projeta que regras de reajustes automáticos podem acrescentar R$ 1,397 trilhão às despesas federais entre 2027 e 2034.
Eleitor mudou e redes sociais pulverizam narrativas
Para Alexandre Manoel, da Global Intelligence and Analytics, a sociedade brasileira tornou-se mais descentralizada, digital e orientada ao trabalho autônomo, realidade impulsionada por plataformas como Uber e iFood. Além disso, o crescimento evangélico — cerca de 27% da população — elevou o peso de valores morais nas escolhas eleitorais.
“Os polos mobilizam nichos, mas encontram dificuldade para formar uma maioria estável”, observa Manoel, ao analisar o cenário de hiperpolarização que desafia tanto governo quanto oposição.
Oposição ainda procura narrativa
Embora Flávio Bolsonaro lidere a disputa fora do PT, especialistas apontam que o senador ainda depende do capital político do ex-presidente Jair Bolsonaro e não apresentou proposta clara de futuro. “Derrotar o PT exige mais do que rejeição ao lulismo; é preciso vender um sonho”, resume Barreto.
A seis meses do início oficial da campanha, o Palácio do Planalto intensifica a liberação de recursos, mas enfrenta um eleitorado mais crítico, conectado e com memória econômica recente das consequências de estímulos semelhantes.
Com informações de Gazeta do Povo