Há mais de três semanas a Bolívia vive uma onda de protestos que paralisa estradas em todo o território, provoca desabastecimento de alimentos, combustíveis e insumos médicos na capital La Paz e pressiona o presidente de centro-direita Rodrigo Paz, eleito em novembro de 2025.
Como a mobilização começou
O movimento teve início no começo de maio, quando trabalhadores saíram às ruas para reivindicar reajustes salariais, redução de tributos e corte nos salários de autoridades. A pauta, formalizada em documento da Central Operária Boliviana (COB) com 16 itens, ganhou força num cenário de inflação anual de 20,4% em 2025 e projeção de queda de 3,3% no Produto Interno Bruto para 2026, legado do governo anterior, do socialista Luis Arce.
Paz já enfrentara protestos entre dezembro de 2025 e janeiro deste ano ao retirar subsídios aos combustíveis, mas na ocasião conseguiu acordos. Desta vez, negociações não frearam a mobilização, que logo foi incorporada por apoiadores do ex-presidente Evo Morales.
Papel de Evo Morales
Morales, que tem mandado de prisão por tráfico humano agravado e abuso sexual de menor, permanece protegido por seguidores no Trópico de Cochabamba. Seus simpatizantes — os “evistas” — expandiram bloqueios de La Paz para Oruro, Potosí, Cochabamba, Chuquisaca e Santa Cruz, isolando a sede do governo. Também interditaram o aeroporto de Chimoré para evitar eventual operação de captura do ex-presidente.
Autoridades bolivianas acusam Morales de usar a crise para evitar a prisão e tentar derrubar Paz. O chanceler Fernando Aramayo o responsabilizou por uma “tentativa de golpe financiada pelo narcotráfico”, alegação rebatida pelo líder socialista, que exige novas eleições em até 90 dias ou o emprego das Forças Armadas para restaurar a ordem.
Impacto humanitário
Escassez de comida, combustível e oxigênio já levou hospitais de La Paz e El Alto a suspender cirurgias. Quatro pessoas morreram por falta de atendimento adequado, entre elas uma menina de 12 anos. No fim de semana, um comboio de 150 veículos militares e policiais que tentava abrir corredor humanitário até Oruro recuou após confrontos; um civil, Víctor Cruz Quispe, foi morto.
Reações internas e externas
No Legislativo, o Senado aprovou projeto que flexibiliza a decretação de estado de exceção, ainda pendente na Câmara. Críticos temem que a medida amplie tensões. Para mostrar disposição ao diálogo, Paz anunciou corte de 50% nos próprios vencimentos e nos de ministros e reuniu o Conselho Econômico e Social com representantes de 40 entidades, mas dirigentes ligados a Morales prometem manter os bloqueios.
Os Estados Unidos, pela voz do secretário de Estado Marco Rubio, declararam que “não permitirão que criminosos e traficantes de drogas derrubem líderes eleitos democraticamente”. Washington enviou alimentos, suprimentos médicos e apoio logístico. A coalizão Escudo das Américas — que reúne 12 países — e o Grupo Idea, composto por ex-presidentes latino-americanos, manifestaram respaldo a Paz.
Argentina, Chile, Peru e Brasil despacharam cargas de mantimentos. Em sentido oposto, o presidente colombiano Gustavo Petro classificou as manifestações como “insurreição popular”, o que levou La Paz a expulsar a embaixadora colombiana, embora sem romper relações.
Com os bloqueios sem data para terminar e a oposição exigindo a renúncia do presidente, a Bolívia entra na quarta semana de impasse sem perspectiva clara de solução.
Com informações de Gazeta do Povo