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Sem tanques na Praça Vermelha e economia em queda: popularidade de Putin atinge menor nível em anos

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No próximo sábado, 9 de maio, o tradicional desfile do Dia da Vitória na Praça Vermelha, em Moscou, ocorrerá sem a habitual exibição de blindados e diante da menor presença de líderes estrangeiros já registrada. A mudança ocorre em meio a uma sequência de pressões que abalam a imagem de Vladimir Putin após mais de duas décadas no poder: recessão econômica, queda nos índices de aprovação e reforço da segurança pessoal do mandatário.

Desfile esvaziado e justificativa militar

O Ministério da Defesa atribuiu a ausência de tanques e armamentos à “situação operacional atual”, referência aos sucessivos ataques de drones ucranianos contra território russo, incluindo Moscou. Na segunda-feira (4), um drone atingiu um prédio de luxo a apenas seis quilômetros do Kremlin.

Entre os poucos chefes de Estado confirmados para a cerimônia estão Alexander Lukashenko (Belarus), o rei da Malásia, sultão Ibrahim Iskandar, e Thongloun Sisoulith (Laos). Xi Jinping (China) e Kim Jong-un (Coreia do Norte) não devem comparecer. A imprensa internacional teve acesso restrito ao evento, que será transmitido majoritariamente pela mídia estatal.

“Nossos tanques estão ocupados agora. Estão lutando”, afirmou o deputado e aliado de Putin, Yevgeny Popov, à BBC, ao comentar a ausência dos veículos de combate na parada.

Aprovação em declínio

Levantamento da Fundação de Opinião Pública indica que 73% dos russos classificam o desempenho de Putin como “satisfatório” — menor índice desde o início da invasão da Ucrânia, em fevereiro de 2022, e três pontos abaixo da pesquisa do começo de abril. A parcela que considera o governo “insatisfatório” subiu para 13%, enquanto 17% dizem não confiar no presidente.

Dados do Centro Russo de Pesquisa de Opinião Pública (VTsIOM) mostram recuo ainda maior: a aprovação caiu de 77,8% no início do ano para 65,6% no fim de abril, o pior resultado desde antes da guerra.

PIB encolhe e reservas se esgotam

Putin reconheceu publicamente que o Produto Interno Bruto russo encolheu 1,8% nos dois primeiros meses de 2026. O vice-chefe de gabinete Maxim Oreshkin descreveu “escassez de mão de obra” e “entraves tecnológicos”, enquanto o ministro do Desenvolvimento Econômico, Maxim Reshetnikov, admitiu que as reservas usadas para sustentar o crescimento “estão amplamente esgotadas”.

Para o economista Vladislav Inozemtsev, o aumento das receitas de petróleo e gás, impulsionado pela alta internacional do barril, não se converte em investimento nem consumo internos, servindo apenas para cobrir dívidas. Já o tenente-general sueco Thomas Nilsson disse ao Financial Times que o preço do petróleo Urals precisaria permanecer acima de US$ 100 por barril durante um ano para zerar o déficit fiscal russo.

Segundo a Jamestown Foundation, quase 30% das empresas do país operaram no vermelho em 2025, acumulando perdas de 7,5 trilhões de rublos (cerca de US$ 100 bilhões), enquanto administrações regionais fecharam o ano com déficit de 1,5 trilhão de rublos.

Bloqueios digitais inflam descontentamento

O governo bloqueou WhatsApp e Telegram — usados por mais de 100 milhões de russos — e impôs restrições ao YouTube, além de apagões periódicos na internet móvel. A medida provocou protestos autorizados em 2025 e abriu espaço para influenciadores normalmente alheios à política criticarem o Kremlin.

O governador de Belgorod, Vyacheslav Gladkov, alertou para o impacto dos bloqueios sobre moradores que dependem do Telegram para receber alertas de ataques aéreos. Segundo o deputado Alexander Yushchenko, o Partido Comunista tem sido “inundado” por queixas.

Parlamento evoca 1917

Na Duma, o líder comunista Gennady Zyuganov advertiu que, sem ações urgentes, o país poderá enfrentar “o que aconteceu em 1917” até o fim do ano, aludindo à Revolução Russa que derrubou o czar Nicolau II. Analistas apontam o discurso como sinal de tensão dentro da elite política.

Segurança reforçada e temor de golpe

Relatório de uma agência de inteligência europeia, obtido pela CNN, detalha um reforço drástico na segurança de Putin: instalação de sistemas de vigilância nas residências de assessores, proibição de que funcionários usem transporte público e limitação do acesso a celulares conectados à internet.

O presidente reduziu a lista de locais que frequenta e passou semanas em bunkers em Krasnodar, perto do Mar Negro. Segundo o documento, ele não visitou instalações militares este ano.

A preocupação aumentou após o assassinato de oficiais de alto escalão em Moscou. Em 22 de dezembro de 2025, o tenente-general Fanil Sarvarov morreu na explosão de seu carro; em dezembro de 2024, o tenente-general Igor Kirillov foi morto em ataque semelhante. As autoridades atribuíram ambos os casos a serviços secretos ucranianos.

Entre economia em retração, desaprovação crescente e temores de segurança, o Kremlin enfrenta seu período mais delicado desde o início da ofensiva contra a Ucrânia.

Com informações de Gazeta do Povo