Brasília, 7 de maio de 2026 – A conversa de quase três horas entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-presidente norte-americano Donald Trump, na Casa Branca, sinalizou uma tentativa de recuperar o protagonismo dos Estados Unidos na América Latina e acendeu o alerta em Pequim, principal parceiro comercial do Brasil.
Brasil em foco na rivalidade de potências
Ao deixar Washington, Lula afirmou ter dado “um passo importante na consolidação da relação com os EUA” e pediu que empresas norte-americanas voltem a investir no país, espaço hoje ocupado pela China. Em rede social, Trump classificou o diálogo apenas como “muito bom”.
Em 2025, o Brasil foi o maior destino mundial de recursos chineses, somando US$ 6,1 bilhões – 45% acima de 2024 e o maior volume desde 2017, segundo o Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC). Pequim considera o Brasil peça central na América Latina, especialmente após a operação dos EUA que resultou na queda de Nicolás Maduro na Venezuela.
Pequim deve responder com mais capital
Analistas ouvidos veem reação cautelosa por parte da China. Para o estrategista Cezar Roedel, o gigante asiático prefere observar movimentos de Washington antes de agir. Já o professor Cássio Eduardo Zen avalia que Pequim tende a oferecer condições comerciais ainda mais atrativas, enquanto Marco Aurélio da Silva, da FSG, interpreta o gesto brasileiro como busca por “autonomia estratégica”.
A expectativa é de que a China intensifique aportes da Iniciativa Cinturão e Rota, sobretudo em logística e energia, áreas nas quais os EUA teriam dificuldade de competir.
Terras raras ganham peso na agenda
No encontro, Lula expôs a Trump o novo marco legal dos minerais críticos, aprovado na véspera pela Câmara. O Brasil detém 23% das reservas globais de terras raras, recurso vital para tecnologias de ponta e dominado atualmente pela China.
Em fevereiro, Washington lançou o “Projeto Vault”, de US$ 12 bilhões, para criar um estoque doméstico desses insumos. Parte do plano já chegou ao Brasil: em abril, a mineradora Serra Verde foi vendida à USA Rare Earth por US$ 2,8 bilhões, operação apoiada pela agência estatal americana DFC com US$ 565 milhões. O negócio é contestado no Supremo Tribunal Federal por partidos de esquerda.
Lula assegurou que não ofereceu exclusividade a Washington. O governo, disse ele, continuará aberto a capitais de EUA, China, Alemanha, Índia e outros, tratando o tema como questão de soberania.
O peso dos investimentos estrangeiros
Apesar do avanço chinês no comércio, os EUA seguem líderes em estoque de investimento direto no Brasil. Dados do Banco Central mostram US$ 232,8 bilhões em 2024, quase seis vezes mais que os US$ 40,3 bilhões chineses.
Reunião extensa e temas sensíveis
Especialistas chamaram atenção para a duração incomum da agenda e para a ausência de coletiva conjunta. Entre os assuntos possivelmente debatidos reservadamente estão tarifas comerciais, eventual classificação de facções brasileiras como grupos terroristas e a venda da Serra Verde. Lula negou ter tratado da questão criminal.
Com eleições presidenciais marcadas para outubro, analistas acreditam que decisões estruturais sobre minerais críticos devam ficar para depois do pleito.
Com informações de Gazeta do Povo