A substituição de seis vitrais do século XIX na Catedral de Notre-Dame de Paris abriu uma nova frente judicial na França. Em 20 de abril de 2026, a autorização oficial para retirar as peças históricas — instaladas durante a restauração conduzida por Eugène Viollet-le-Duc — foi fixada nas grades do templo. O anúncio provocou reação imediata da associação de preservação Sites et Monuments, que ingressou com recurso de urgência no Tribunal Administrativo de Paris.
Os vitrais, localizados em uma das capelas do lado sul da nave, deverão ser trocados por criações contemporâneas da artista francesa Claire Tabouret, projeto apresentado ao público no Grand Palais no fim de 2025. Os andaimes começaram a ser montados em 27 de abril, mesmo diante da contestação judicial em curso.
Oposição ampla e custos elevados
Desde 2024, o plano enfrenta resistência de especialistas em patrimônio, fiéis católicos e da própria Comissão Nacional de Patrimônio e Arquitetura, que emitiu parecer negativo em julho daquele ano. Críticos afirmam que retirar vitrais que resistiram ao incêndio de 2019 — posteriormente limpos e restaurados — fere a lógica da recuperação do monumento. Também questionam o valor estimado da operação, cerca de 4 milhões de euros (aproximadamente R$ 22 milhões).
Para o presidente do Sites et Monuments, Julien Lacaze, a discussão é central para a defesa do legado de Viollet-le-Duc. “Ele não foi apenas restaurador; foi criador pleno”, declarou ao jornal católico Famille Chrétienne.
Um processo anterior, ainda em grau de apelação, já contestava a autoridade do órgão público que coordena a reconstrução de Notre-Dame. Paralelamente, a entidade lançou campanha de financiamento coletivo para bancar as custas jurídicas.
Pressão popular e papel de Macron
Mais de 340 mil assinaturas reforçam uma petição pela manutenção dos vitrais originais. Parte da rejeição popular associa o projeto ao desejo do presidente Emmanuel Macron de deixar marca contemporânea na catedral — intenção já aventada em 2019, quando ele cogitou erguer uma torre de desenho moderno, proposta depois abandonada.
A leitura de um “decisão de cima para baixo” ganhou força após a liberação da obra, apesar dos pareceres técnicos contrários. A repercussão repercute intensamente nas redes sociais e motivou o padre parisiense Michel Viot a convocar manifestação pacífica em frente ao templo, com orações e recitação de terços, no dia em que houver intervenção direta nas peças históricas.
Argumentos dos defensores
Proponentes da mudança sustentam que monumentos devem permanecer abertos a expressões artísticas contemporâneas. A própria Tabouret advertiu contra “congelar o monumento no tempo”. O arcebispo de Paris, Laurent Ulrich, aprovou o projeto, posição compartilhada por parte do clero favorável à integração de arte moderna em espaços históricos.
Enquanto andaimes avançam, o destino dos vitrais de Viollet-le-Duc dependerá da decisão do Tribunal Administrativo, que deve avaliar a validade da autorização nas próximas semanas.
Com informações de Gazeta do Povo