O Reino Unido diminuiu em 2% seus investimentos em defesa em 2025, totalizando US$ 89 bilhões, e caiu do quarto para o sexto lugar no ranking global de gastos militares, segundo relatório anual do Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo (Sipri) divulgado em 27 de abril. A redução ocorre enquanto Londres volta a ser questionada pela Argentina sobre a soberania das Ilhas Malvinas.
Sipri aponta retração britânica
Os gastos militares britânicos representaram 2,4% do Produto Interno Bruto no ano passado. Entre os principais aliados, Alemanha (+24%), França (+1,5%), Itália (+20%), Polônia (+23%) e Espanha (+50%) caminharam na direção oposta, aumentando seus orçamentos de defesa. Já China e Rússia também ampliaram investimentos, em 7,4% e 5,9%, respectivamente.
Nos Estados Unidos, líder mundial em despesas militares, houve queda de 7,5% em 2025, atribuída à falta de novos pacotes de ajuda à Ucrânia; analistas preveem retomada de alta diante do conflito com o Irã.
Pressão interna por mais recursos
A hesitação do governo trabalhista de Keir Starmer em reforçar o orçamento das Forças Armadas gera críticas internas. O ex-secretário-geral da Otan e hoje lord George Robertson alertou que o gasto britânico com programas sociais é cinco vezes maior que o destinado à defesa e questionou a prioridade do país.
Embora Downing Street prometa elevar a despesa militar para 3% do PIB até 2029, especialistas consideram o ritmo lento. Richard Knighton, chefe do Estado-Maior da Defesa, admitiu ao Parlamento que as metas atuais não cobrem todas as necessidades.
Força Naval em desvantagem
Relatório encomendado pelo Parlamento britânico e publicado na revista Warship World (março/abril de 2025) indicou que a Marinha Real foi superada pela Força de Autodefesa Marítima do Japão em número de navios, aeronaves e efetivo. A última escolta entregue à frota britânica data de 2013, enquanto os japoneses incorporaram 12 unidades entre 2013 e 2024.
Malvinas voltam à pauta
Em meio à redução nos orçamentos, ressurgiu a disputa pelas Ilhas Malvinas. Reportagem da agência Reuters informou que Washington poderia reavaliar seu apoio diplomático a antigas possessões europeias caso aliados não cooperem nas operações no Estreito de Ormuz, incluindo o arquipélago controlado por Londres desde o século XIX.
O cenário animou o governo argentino. A vice-presidente Victoria Villarruel afirmou que “os kelpers são ingleses que vivem em território argentino” e que, se se sentem britânicos, “devem voltar” ao Reino Unido. Ela defendeu negociação bilateral sem considerar a população local, que em referendo de 2013 rejeitou em 99,8% a incorporação à Argentina.
O presidente Javier Milei reiterou a reivindicação, mas frisou buscar solução diplomática. A Argentina aplicou US$ 3,87 bilhões em defesa em 2025, apenas 0,6% do PIB, muito abaixo do orçamento britânico.
Postura dos Estados Unidos
Apesar da afinidade entre Milei e o presidente americano Donald Trump, o Departamento de Estado mantém posição de neutralidade e reconhece a administração de facto britânica nas ilhas, descartando auxílio militar a Buenos Aires.
Especialista vê baixo risco de conflito
Para Sandro Teixeira Moita, professor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, a Constituição argentina pós-ditadura exige solução pacífica, tornando improvável um confronto. O pesquisador avalia que o tema pode ser usado por Washington como instrumento de pressão para que Londres participe mais ativamente de operações lideradas pelos EUA.
Moita também lembrou que a política de defesa britânica é criticada por depender de equipamentos vendidos a terceiros, como os navios HMS Ocean e HMS Bulwark, adquiridos pela Marinha do Brasil com menos de 20 anos de uso, além de problemas no blindado Ajax e nos custos do caça F-35.
Com informações de Gazeta do Povo