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Teólogos rebatem J.D. Vance e afirmam que guerra envolve questões morais inegociáveis

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Teólogos católicos contestaram declarações do vice-presidente dos Estados Unidos, J.D. Vance, que sugeriu ao Vaticano limitar‐se a temas estritamente religiosos e evitar interferir em políticas públicas, especialmente sobre o conflito entre Estados Unidos e Irã.

Em 13 de abril, durante o programa “Special Report with Bret Baier”, da Fox News, Vance disse ser “bom o papa tratar do que lhe importa”, mas ponderou que “em alguns casos, seria melhor que o Vaticano se atenha a questões de moralidade […] e deixe o presidente dos Estados Unidos ditar a política pública americana”. No dia seguinte, em evento da Turning Point USA na Universidade da Geórgia, o vice-presidente elogiou o compromisso do papa Leão XIV com a paz, mas questionou a interpretação pontifícia da doutrina da guerra justa.

As falas ocorreram após Leão XIV publicar na rede X que “Deus não abençoa nenhum conflito” e enquanto o secretário de Estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin, e o cardeal Robert McElroy afirmavam não ver na guerra atual critérios que a tornem justa.

“Política e moralidade se sobrepõem”, dizem especialistas

O professor de teologia moral Joseph Capizzi, da Universidade Católica da América, avaliou que Vance “está simplesmente errado” ao separar moralidade de política pública. “Para as pessoas serem morais, elas precisam de uma comunidade política boa, saudável e estável”, declarou, lembrando que a Igreja, com dois milênios de experiência, oferece contribuições essenciais para esse debate.

Segundo Taylor Patrick O’Neill, do Thomas Aquinas College, “não existe arena amoral” e, portanto, o papa tem o dever de abordar assuntos políticos quando eles tocam na dignidade humana. O’Neill ressaltou que o pontífice não dita estratégias militares, mas aponta políticas “intrinsecamente contrárias ao florescimento humano”.

Para Ron Bolster, da Universidade Franciscana de Steubenville, a distinção proposta por Vance “não é útil”. Ele defendeu que o Evangelho deve influenciar a formulação de políticas públicas e lamentou o tom público da discordância do vice-presidente com o papa.

Perguntas sobre a guerra justa

Durante o evento na Geórgia, Vance indagou se “Deus estava do lado dos americanos que libertaram a França dos nazistas” e libertaram os campos de concentração. Capizzi respondeu que o argumento do papa mira o “aumento do recurso à violência” e a necessidade de avaliar com “humildade” se a causa atende aos critérios da doutrina da guerra justa.

O’Neill acrescentou que, mesmo quando a participação na guerra é considerada necessária, o cristão deve encará-la como “tragédia”, jamais com indiferença ou exaltação. Bolster, por sua vez, contextualizou o comentário de Leão XIV nas ameaças do presidente Donald Trump de destruir a “civilização iraniana”, o que, segundo ele, atinge civis e cultura local.

Cessação temporária de fogo

Estados Unidos e Irã iniciaram um cessar-fogo de duas semanas em 8 de abril. Até o momento, não há acordo de paz permanente.

A reportagem procurou o gabinete de Vance para saber se o vice-presidente considera que as justificativas para entrar ou conduzir uma guerra sejam questões morais, mas não obteve resposta.

Com informações de Gazeta do Povo