Brasília — O relatório final da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado, rejeitado por 6 votos a 4 na noite de 14 de abril, descreve um amplo esquema de cooptação de autoridades orquestrado pelo banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. Segundo o documento de 221 páginas, Vorcaro teria financiado cerca de 300 eventos de alto luxo para criar uma rede de proteção que alcançava os três Poderes da República.
Elaborado pelo relator, senador Alessandro Vieira (MDB-SE), o texto aponta que apenas em 2024 os gastos do banqueiro com festas e “mimos” a agentes públicos somaram US$ 11,5 milhões (aproximadamente R$ 60 milhões na época). As despesas apareceram em registros contábeis e fiscais analisados pelos parlamentares e pela Polícia Federal.
“Cine Trancoso” e protocolo de sigilo
O capítulo mais sensível do relatório trata de encontros realizados na casa de veraneio de Vorcaro em Trancoso, sul da Bahia, batizados de “Cine Trancoso”. Documentos da Polícia Federal informam que as reuniões eram restritas a autoridades brasileiras e contavam com mulheres estrangeiras vindas, entre outros países, de Rússia, Ucrânia, Noruega e México. A escolha de convidadas de fora do Brasil teria o objetivo de evitar reconhecimento dos participantes.
Durante os eventos, celulares eram recolhidos e guardados por seguranças, enquanto câmeras internas registravam todas as atividades, gerando, segundo o relator, um possível instrumento de chantagem. Nenhum nome de autoridade frequentadora foi divulgado.
Varredura digital localiza 400 GB de material
Investigadores extraíram cerca de 400 gigabytes de dados dos aparelhos e da nuvem de Vorcaro, contendo vídeos de festas em Brasília, Trancoso e Londres, imagens de passaportes de convidadas e gravações íntimas. O acervo reforça, de acordo com o relatório, suspeitas de tráfico internacional de pessoas e exploração sexual.
Luxo também em Lisboa
Em abril de 2024, durante o Fórum Jurídico de Lisboa — apelidado de “Gilmarpalooza” — a equipe de Vorcaro teria organizado uma programação paralela com DJs, jantares estrelados e compras em shoppings de alto padrão. A conta alcançou US$ 1,6 milhão (cerca de R$ 8 milhões), além de dois jatos fretados para o retorno de autoridades ao Brasil ao custo de US$ 232,6 mil.
Pedidos de indiciamento e reação do STF
Vieira incluiu no relatório pedidos de indiciamento dos ministros do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes, além do procurador-geral da República, Paulo Gonet. A Presidência do STF, comandada por Edson Fachin, divulgou nota classificando a menção como “indevida” e alertando para riscos a direitos fundamentais. Gilmar Mendes solicitou que a Procuradoria-Geral da República investigue o relator por possível abuso de autoridade.
Próximos passos
Apesar de rejeitado na comissão, o documento pode ser remetido a outros órgãos de investigação, como Ministério Público e Polícia Federal, que avaliarão a abertura de processos com base nas evidências reunidas.
Com informações de Gazeta do Povo