A produção brasileira de cevada segue em expansão, impulsionada por investimentos no campo e pela instalação de novas maltarias, mas a retração no consumo de cerveja entre os jovens acende um sinal de alerta na indústria. O país colhe entre 400 mil e 500 mil toneladas do grão por ano, volume ainda insuficiente para suprir as mais de 800 mil toneladas exigidas pelo mercado cervejeiro nacional.
Paraná lidera a colheita
Responsável pela maior parte da cevada do país, o Paraná assumiu a liderança graças ao clima favorável, solos adequados para culturas de inverno e à forte organização cooperativista, explica Salatiel Turra, analista do Sistema Ocepar. Entre as cooperativas de destaque está a Agrária, de Guarapuava, que mantém desde a década de 1960 a Fundação Agrária de Pesquisa Agropecuária (FAPA), responsável por avanços que elevaram a qualidade do cereal.
Produtores como Bruno Reinhofer, que cultiva cevada há 19 anos em Reserva do Iguaçu (PR), apostam exclusivamente no grão. Reinhofer planta mais de 800 hectares e relata melhor desempenho com o lançamento de novas variedades.
Maltarias ampliam capacidade
Em Ponta Grossa, a Maltaria Campos Gerais investiu R$ 1,6 bilhão para produzir 240 mil toneladas de malte ao ano, demanda que exige cerca de 300 mil toneladas de cevada. Segundo o gerente Vilmar Schüssler, 30 % da matéria-prima ainda vem de países vizinhos, sobretudo a Argentina, mas a participação do produto nacional tem crescido com o apoio de cooperativas e pesquisas.
Investimentos da indústria cervejeira
O polo dos Campos Gerais também atraiu grandes grupos do setor. A Ambev aplicou R$ 1 bilhão na primeira fábrica de garrafas de vidro do Paraná, com capacidade para 600 milhões de unidades por ano. Já o Grupo Heineken desembolsou R$ 2 bilhões para ampliar sua cervejaria local, hoje a maior da empresa no Brasil e a terceira no mundo.
Consumo em queda e cautela nos investimentos
A despeito dos aportes, a Heineken anunciou em fevereiro a demissão de 6 mil funcionários em operações globais, alegando lucros abaixo do esperado. O movimento reflete mudanças de hábito: pesquisa encomendada pelo Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA) aponta que de 46 % a 64 % dos jovens de 18 a 24 anos não consumiram álcool no ano passado. A tendência de redução afeta toda a cadeia, diz Turra, e pode frear planos de expansão de maltarias e produtores.
Busca por novos mercados
Para reduzir a dependência da cerveja, especialistas veem potencial crescente da cevada na alimentação humana — em versões integrais e funcionais —, na ração animal e em aplicações industriais e energéticas. “Os avanços genéticos já permitem levar a cultura a novas regiões e manter a qualidade”, afirma Noemir Antoniazzi, pesquisador da FAPA. Ele aposta que o Brasil pode tornar-se autossuficiente em cevada no médio prazo.
Procuradas, Ambev e Heineken não comentaram.
Com informações de Gazeta do Povo