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Conflito no Irã e inflação fora da meta reduzem espaço para corte da Selic, avaliam analistas

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O plano do Banco Central de iniciar a redução da taxa básica de juros na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) dos dias 17 e 18 de março corre risco diante da escalada do conflito no Oriente Médio e da inflação acima das projeções. A gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva prioriza a queda da Selic em pleno ano eleitoral, mas a combinação de choque externo e pressão de preços domésticos colocou o corte em dúvida.

Desde a madrugada de 28 de fevereiro, quando começou a ofensiva iraniana, o barril de petróleo Brent opera acima de US$ 80 e o bloqueio do Estreito de Ormuz — rota de mais de 20% da oferta global de petróleo — elevou a volatilidade cambial. Antes da guerra, o mercado considerava praticamente certa uma redução de 0,50 ponto percentual, que levaria a Selic a 14,5%. Agora, parte dos economistas defende cautela.

Probabilidades de corte já mudaram

Os contratos de opções de Copom negociados na B3 mostram que a chance de um corte de 0,50 ponto caiu de 83% na quinta-feira (26) para 74% na segunda-feira (2). Ao mesmo tempo, a probabilidade de ajuste menor, de 0,25 ponto, subiu de 14% para 23% no período.

Para Flávio Serrano, economista-chefe do Banco BMG, o aumento da incerteza justificaria um início “mais comedido” do ciclo de afrouxamento, limitado a 0,25 ponto percentual. Já André Matos, CEO da MA7 Negócios, considera que manter a Selic em 15% tornou-se o cenário mais prudente para evitar novas revisões altistas nas expectativas de inflação.

Efeito do petróleo sobre o IPCA

Segundo cálculos da XP Investimentos, cada alta de 10% no Brent adiciona cerca de 0,25 ponto percentual ao IPCA. Se o barril permanecer nos níveis atuais, o risco de pressão extra sobre a inflação de 2026 alcança 0,4 ponto. Esse impacto se soma ao avanço de 0,84% no IPCA-15 de fevereiro, que elevou a taxa acumulada em 12 meses para 4,10%.

A preocupação, ressaltam analistas, é a aceleração dos núcleos de inflação: a média desses indicadores passou de 0,43% para 0,66%. Serviços ligados ao mercado de trabalho — educação, saúde e alimentação fora de casa — subiram 0,65%, sinalizando persistência nos preços.

Cenário doméstico fragilizado

Para o Bradesco, a surpresa inflacionária e o ambiente internacional conturbado reduziram a margem de manobra do Copom. No lugar de um ciclo rápido de desinflação, o mercado passou a projetar juros altos por período prolongado.

O debate ganhou a participação do Tesouro Nacional. Na segunda-feira (2), o secretário Rogério Ceron classificou o atual patamar do petróleo como “suportável”, mas advertiu que valores acima de US$ 100 poderiam antecipar o fim dos cortes de juros. Ele lembrou que, apesar do ganho fiscal com royalties, a pressão sobre custos recai diretamente sobre a população.

Roberto Simioni, economista-chefe da Blue3 Investimentos, alertou para o risco de “estagflação estrutural”. Se a inflação ultrapassar 3,5%, o Banco Central pode ser obrigado a interromper a flexibilização e até subir a Selic para conter fuga de capitais, o que agravaria a desaceleração econômica.

A decisão do Copom, agora, não se resume à magnitude do ajuste, mas à própria viabilidade de iniciar o ciclo de cortes em março diante do choque geopolítico e da inflação persistente.

Com informações de Gazeta do Povo